O ciclista Edwaldo Knnup pedala diariamente há 25 anos. Em um dos seus deslocamentos, ele conta, foi atropelado por um ônibus que o fechou ao fazer uma curva. O choque fez o jovem ser arremessado na calçada, provocando escoriações por todo o corpo. Na semana passada, a história da estudante Julia Resende, de 19 anos, teve desfecho mais trágico. Quando passava pela Rua São Clemente, em Botafogo, foi atropelada e morta por um coletivo:
— Nós somos invisíveis. Aqui no Rio, os motoristas acham que bicicleta é coisa de vagabundo — afirma Knnup.
Em tese, há alguns mecanismos para enfrentar o problema. No Código de Trânsito Brasileiro (CTB), dois artigos punem motoristas que colocam em risco a vida do ciclista: o 201, que determina que o condutor mantenha distância lateral de 1,5 metro da bicicleta; e o 220, que exige a redução da velocidade do veículo de forma compatível com a segurança do ciclista. De acordo com o Detran-RJ, só oito motoristas foram multados, entre janeiro e agosto de 2016, por cometerem alguma dessas duas infrações. Em 2015, foram dez. E, em 2014, nove.
Protesto na Rua Sao Clemente, após o enterro de ciclista atropeladaEm depoimento à polícia, motorista diz que não viu ciclista atropelada
— Eu não conheço nenhum motoristas que já tenha sido enquadrado. Não existe a aplicabilidade dessas leis — afirma Raphael Pazos, presidente da Comissão de Segurança no Ciclismo da Cidade do Rio. — Queria saber por que a Guarda Municipal não multa os motoristas que não cumprem as leis que protegem a vida do ciclista. Nesse quesito, São Paulo já saiu na frente.
FALTAM ESTATÍSTICAS
Não há estatísticas oficiais sobre o número de mortes, atropelamentos e acidentes envolvendo bicicletas no Rio. A Comissão de Segurança no Ciclismo, porém, estima que ao menos um ciclista seja atropelado por dia na cidade. Há dois anos, um estudo da ONG Proteste com quase 2 mil ciclistas identificou que a segurança deles nas ruas do país está sempre em risco. No Rio, 51% dos entrevistados disseram já ter sofrido acidentes.
Um teste feito pelo GLOBO ontem, em ruas de bairros da Zona Sul, mostrou que, de modo geral, os motoristas não guardam a distância necessária dos ciclistas, transformando a pedalada num risco.
Em nota, a Guarda Municipal disse que realiza ações de fiscalização de trânsito, mas o registro de infrações só pode ser feito mediante o flagrante da irregularidade pelos agentes. Afirmou também que entre as infrações mais comuns contra os ciclistas estão o estacionamento irregular de veículos sobre as ciclovias ou ciclofaixas, que levou à aplicação de 1.944 multas no ano de 2015.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Domingos Peixoto / O Globo