Alguns entram descalços, outros com a camisa rasgada. Quase sempre maltrapilhos, estão famintos e, por isso, voltam de segunda a sexta-feira à pequena capela escondida atrás do muro da casa de número 14, na Travessa do Mosqueira, entre as ruas da Lapa e Joaquim Silva. Um cheiro de álcool misturado com suor invade o lugar, que fica sob os cuidados das missionárias de Madre Teresa de Calcutá. O odor exala de pessoas que vivem nas ruas do Centro do Rio, cada uma com sua mochila nas costas e um punhado de histórias que, fora dali, ninguém quer ouvir.
CINCO MINUTOS DE ORAÇÃO
As missionárias habitam o antigo imóvel desde 1998, quando a Arquidiocese cedeu o lugar para a ordem, fundada em 1950 pela mulher de 1,52m, santificada em 4 de setembro. As seguidoras de Madre Teresa de Calcutá servem aos pobres mais de 200 refeições por dia. Muitos chegam em jejum ao portão, onde se debruçam à espera da hora de entrar, às 16h. Pedem de tudo às irmãs: cobertor, roupa, remédio. A casa é mantida apenas com doações de pessoas físicas e a ajuda de voluntários. Tudo o que chega vai para os sem-teto, e também para 16 idosos abandonados pelas famílias que vivem no asilo mantido pelas irmãs, no segundo andar. Aos que querem almoçar, elas só fazem um pedido: cinco minutos de oração antes de comer.
— Enquanto eles rezam, terminamos de preparar os pratos na cozinha. Para nós, amor é a caridade em ação — conta sorridente a irmã Joana, única missionária brasileira na casa, que teve seu hábito entregue pela própria santa na Califórnia, no início dos anos 90.
A madre virou santa de Calcutá, mas suas missionárias da caridade ainda a chamam singelamente de “nossa mãe”. Das mais de cinco mil irmãs espalhadas por 150 países, 68 vivem no Brasil, sendo 20 no Rio, cidade onde a congregação atua em maior número, em três endereços — em todo o país, são 13.
Em uma casa na Avenida Brasil, em Bonsucesso, dez missionárias cuidam de 20 idosas que viviam nas ruas. Em Realengo, seis irmãs dão apoio a mulheres soropositivas e a adolescentes gestantes. Na casa da Lapa ficam um brasileira e três indianas, sempre vestidas como Teresa de Calcutá: com uma túnica branca com detalhes azuis.
Para se tornar missionária da caridade é preciso abrir mão de tudo. A formação, com nove anos de duração, pode começar no Brasil, continuar no Vaticano e terminar na Índia. As irmãs fazem voto de pobreza e só podem visitar a família uma vez a cada dez anos. A rotina delas começa cedo: acordam às 4h30m e preparam a primeira cerimônia religiosa do dia, às 5h. Cuidam da casa, tratam dos idosos, fazem o almoço. As refeições são servidas apenas no endereço da Lapa, numa das ruas mais barulhentas e perigosas da região.
PEDIDO DE DOAÇÃO DE TEMPO
Em algumas noites, quando a boemia carioca invade o histórico bairro, haja oração para conseguir dormir. Há pouco tempo, durante uma missa de sábado, aberta a todos, a irmã Maria, indiana que vive no Brasil desde 1986, teve que pedir ao dono do bar em frente que abaixasse a música.
— Cada irmão que vem aqui é o rosto de Jesus — afirma Maria, a responsável pela casa, que recebeu esse nome ao entrar para a ordem. — Em geral, são pessoas sem nada, sem família, sem amor. Tentamos ajudá-los a reencontrar os parentes e muitos acabam voltando para casa.
Durante a oração, antes das refeições, a maioria fecha os olhos enquanto irmã Joana lê a Bíblia. “Vinde Espírito Santo, acendei neles o fogo do nosso amor”, diz em voz alta. No último banco da capelinha, que tem um crucifixo no altar e uma imagem de Santa Teresa, um homem chora em silêncio. Depois, conta sua história: perdeu o emprego há um mês e, por vergonha de ficar sem trabalho na casa dos pais, preferiu as ruas do Centro.
— Aqui é muito bom. Dão roupa, kit de higiene, ajudam a tirar documentos. Estou procurando qualquer trabalho, distribuindo currículos todos os dias. Sou pintor, vigilante, porteiro e faxineiro — diz José Carlos da Silva Fidélis, de 45 anos. — Quero voltar pra casa, mas só se for empregado.
A quem pretende fazer doações, a irmã Maria só faz um pedido:
— Doe um pouquinho de tempo. Venha e perceba o que sente seu coração. Depois, se quiser ajudar, agradecemos.
Fonte: O GLobo
Foto: Luiz Ackermann / Agência O Globo
Postado por: Raul Motta Junior