Prestes a receber a sexta edição da Feira Internacional de Arte do Rio (ArtRio), que desde 2011 reúne as principais galerias do Brasil e do mundo com o objetivo de divulgar a arte brasileira no país e no exterior, a cidade volta os seus olhos para a produção artística como um todo. Para entrar no clima, O GLOBO-Zona Sul traça um panorama de galerias e espaços do gênero, entre eles alguns que chegaram há pouco à região, e outros já consolidados. Todos com objetivos em comum: apresentar o que há de melhor, e por vezes desconhecido, na produção artística brasileira e despertar o interesse pelo setor.
Inaugurada em janeiro deste ano, a Cavalo, em Botafogo, tem uma proposta inovadora. Sem nomes óbvios e respaldados, a galeria se propôs, desde o início, a ser heterogênea. Representa oito artistas brasileiros contemporâneos, sem necessariamente ter um fio condutor entre eles, e realiza exposições individuais e coletivas, incluindo artistas que nunca expuseram no Rio. Tudo é feito depois de minuciosa pesquisa dos sócios Ana Elisa Cohen e Felipe Pena, e apresentado no espaço do casarão da Rua Sorocaba 51.
— Somo um grupo bem heterogêneo, não temos uma cara. Queremos apresentar artistas novos, sempre respeitando o trabalho de cada um — conta Ana Elisa. — Não entendo quando perguntam como nós tivemos coragem de abrir a Cavalo. Conduzimos um espaço em que acreditamos.
Atualmente, a galeria abriga a exposição “Imagem-lembrança”, de Pablo Pijnappel, carioca que se divide entre Rio e Berlim, e cujos trabalhos dialogam com recordações coletivas e pessoais e são apresentados em fotografias, manuscritos, instalações e performances. A Cavalo está no hall das galerias que participarão do ArtRio. Para o evento, Ana Elisa e Pena levarão três artistas: Álvaro Seixas, Marina Weffort e Vijai Patchineelam. Depois, os dois partem para uma feira de arte na Itália.
Ana Elisa Cohen e Felipe Pena estão à frente do espaço Cavalo inaugurado em janeiro deste ano – Analice Paron
Já a galeria Athena Contemporânea, no Shopping Cassino Atlântico, em Copacabana, além de incentivar novos nomes, conta com perfis consolidados, como Lais Myhrra e Débora Bolsoi. São 13 artistas com obras à venda e que também contam com assessoria do diretor Filipe Masini.
— É claro que o papel junto ao artista é da venda do trabalho, mas o nosso perfil aqui é mais de formação a longo prazo, como colocação desses artistas em coleções, viabilização da produção e discussão intelectual dessas obras. Trabalhamos para aumentar a visibilidade desses artistas, os colocamos em contato com curadores, instituições… Pesquisamos editais, prêmios para que eles participem. Temos uma preocupação que vai além da compra e da venda de obras — afirma Masini.
A galeria abre hoje, às 19h, a individual “Monumento”, de Vanderlei Lopes, com peças que poderiam passar despercebidas, mas ganham destaque. É o caso de um “pano” usado para cobrir uma escultura e que, fundido em cobre, acaba trasnformado na própria obra ou uma dobradura amassada e fundida em bronze.
PRAZER EM DESCOBRIR TALENTOS
A Athena Contemporânea, espécie de filha da Athena Galeria de Arte, é voltada para o mercado secundário, com obras de Volpi, Helio Oiticica, Keith Haring, Vik Muniz e Julio le Parc, entre outros. Liecil Oliveira, diretor da Athena Galeria, é um dos grandes admiradores dessa nova geração de marchands, profissionais que compram e vendem obra de arte. Segundo ele, é uma forma de renovar o mercado:
— É um espetáculo essa nova safra de profissionais talentosos, à procura de um setor importante. Eles renovam e criam mercado. Preocupam-se com os artistas jovens ingressando no mercado de arte. Fico contente de ver que as coisas continuam em seu caminho normal.
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Obras de Keith Haring (amarela) e de Vik Muniz fazem parte do acervo da Athena Galeria de Arte, que fica em Copacabana – Agência O Globo / Analice Paron
Oliveira, que começou no ramo em 1994, lembra que na época obras de brasileiros hoje consagrados, como Oiticica, Lygia Clark e Volpi, valiam pouco, mas que, ainda assim, a história das obras lhe chamava atenção. Por isso foi um dos que investiram nesses nomes.
— Eu aconselhava os clientes a incluírem esses nomes na coleção, independentemente do preço, porque acreditava que tinham uma história bonita, mesmo aqueles que não tinham um valor alto — lembra Oliveira.
É esse o pensamento dos irmãos Gustavo e Guilherme Carneiro, à frente da Galeria Inox, com duas salas, uma de exposição e outra mais comercial, ambas no Cassino Atlântico. Eles representam sete artistas, sendo um cubano (Jorge Mayet) e um espanhol (Xevi Sòla), todos considerados palpitantes e promissores. Tanto Gustavo quanto Guilherme são colecionadores e garantem que os nomes representados por eles fazem parte de suas coleções pessoais.
— Não precisa ser um grande artista. Mas todos têm trabalhos excepcionais. Queremos apresentá-los, iniciá-los, pensar junto as suas carreiras — explica Guilherme.
Ele considera que a expansão de museus no Centro e a solidificação do ArtRio contribuíram para criar um maior interesse pela arte por parte dos cariocas. Gustavo acredita que a feira vai aquecer ainda mais o mercado. A sócia do ArtRio, Brenda Valansi, também é otimista. Para ela, o cenário da Zona Sul é promissor e representa muito bem o momento atual da arte contemporânea brasileira.
— A Zona Sul tem produção artística intensa, efervescente, e um grupo de altíssimo nível. O foco desta edição do ArtRio é principalmente as galerias brasileiras. Não vamos ter um destaque internacional, mas estamos num momento muito rico da produção nacional, com o reconhecimento da nossa arte. Acho que as galerias da Zona Sul representam bem o que a arte brasileira vem se tornando — revela, completando. — O Rio tem uma vocação cultural forte, a compra de arte cresce bastante, e as galerias e feiras ajudam a ensinar que arte não é apenas para milionários. Existem fotografias, serigrafias, obras com valores acessíveis.
Na Inox, da esquerda para a direita: Cláudio Cadeco, Ítalo Rodrigues, Guilherme e Gustavo Carneiro – Fotos de Analice Paron
Das 73 galerias de arte moderna e contemporânea que vão participar do ArtRio no Armazém do Píer Mauá, no Centro, 22 são da Zona Sul. Mesmo quem não vai expor na feira pretende realizar uma programação voltada para o evento. É o caso da galerista Camila Tomé, da C. Galeria. Depois de uma gestação, Camila optou por não participar, mas vai inaugurar uma mostra paralela, que abre sábado, 24, às 11h. São seis artistas, três representados por ela e três pelo Escritório de Arte Gaby Índio da Costa.
A galeria, que antes tinha outra sócia, abriu em janeiro com este nome e representa dez artistas com trajetórias recentes. Eles são selecionados de acordo com o olhar diferenciado de Camila. Para ela, o fato de haver muitas galerias com jovens à frente é positivo para o mercado, uma forma de enriquecer a área.
— Acho que nenhuma galeria compete com a outra, todas têm um diferencial. Ver uma galeria fechando é muito pior. Nunca vi as outras como ameaça. Pelo contrário, costumo fazer parcerias porque acho que isso enriquece o mercado — declara.
EXPERIÊNCIA EM LUZ E PERSPECTIVA
Na galeria CorMovimento, no Lebon, inaugurada em novembro de 2014, a arte moderna tem sua representatividade. Apesar de não participar desta edição do ArtRio, o local inaugura uma exposição inédita nesta terça-feira, às 18h. Com sua primeira individual no Rio — após dezenas em museus na Europa —, a holandesa Thera Regouin apresenta “Escapando do caos”, nove pinturas abstratas, com bastante textura, onde sobressai a cor azul, e cujas telas foram preparadas com camadas ora em azul, ora em vermelho, ora em amarelo, o que fica evidente quando parte da superfície é pincelada de branco. A arte, em óleo, busca um equilíbrio em meio ao caos e à violência.
Thera Regouin ao lado das inéditas telas azuis, pintadas para a exposição “Escapando do Caos”, na galeria CorMovimento – Analice Paron
— O que eu não quero é imitar o caos, a violência, o sangue, não quero repetir isso em minhas obras. Procuro escapar disso, quero criar uma ordem dentro do caos. O azul é uma cor serena, tento criar com ela um escapamento do mundo — explica.
Na exposição, com curadoria de Glória Ferreira, serão apresentadas mais 21 obras de outros períodos. Para a dona da CorMovimento, Rosa Cordeiro Guerra, a pintura de Thera consegue transmitir força e delicadeza em suas telas. Ela conheceu o trabalho da artista na Alemanha e, desde então, passou a acompanhá-la. Depois que veio morar com o marido, que é carioca, em Copacabana, Thera foi convidada a expor na CorMovimento.
Já na Gustavo Rabello Arte, galeria do Copacabana Pallace que vai participar da feira internacional, o artista plástico Arthur Luiz Piza, de 80 anos, expõe um panorama de toda a sua produção, a partir do dia 27.
Os trabalhos passeiam por várias épocas e vão de colagens em madeira e cartão dos anos 1960, passando por aquarelas, corte e recorte, cerâmicas de Sèvres, até os mais recentes, que são construções engendradas a partir de sistemas de redes e molas metálicas.
Fonte: O Globo
Foto:Analice Paron
Postado por: Raul Motta Junior