Com tesoura nos dedos, relógio dourado e cavanhaque aparado, Marcelo Anderson Ferreira é a estrela do Salão Faria, na Avenida Dom Helder Câmara, quase na entrada do Jacarezinho. Na última quarta-feira, chegou atrasado para o trabalho, já na hora do almoço, contando que tinha dormido tarde na véspera. Tem 24 anos. Começou fazendo de graça o cabelo de amigos. Passou a cobrar R$ 3. Hoje, seu corte pode chegar a R$ 120.
Marcelo é um talento: desenha qualquer coisa na nuca de qualquer um, bastando uma máquina e uma navalha. Do rosto de Neymar, sucesso durante a Copa do Mundo, ao da Monalisa. Do mosquito Aedes aegypti à planta da maconha. O que pedirem, ele cria. Seu primeiro corte desenhado foi a logomarca da empresa Adidas. Depois, veio a da Nike. Há pouco tempo, fez um jacaré inspirado na Lacoste que, diz ele, parecia acompanhar as pessoas com o olhar. Com celular na mão, copia o desenho na cabeça do cliente usando lápis de olho. Em seguida, começa o trabalho minucioso, paciente, com a ponta da navalha. Demora três horas para fazer um diamante e um tribal na nuca de Yuri Ramiro, de 13 anos.
— Já demorei quatro horas num corte. Precisa ter muita calma, para o cliente gostar e voltar outro dia — afirma Marcelo, seguido nas redes sociais por gente de todo o país.
O Jacarezinho tem mais barbearias do que bares e restaurantes juntos. São quase cem, que se somam a uma outra centena, do vizinho Complexo de Manguinhos. A maioria é salão de fundo de quintal, com apenas duas cadeiras. Nenhum é maior do que o Faria, perto da sede da Suipa. Quinze barbeiros trabalham no local e ganham, por mês, algo em torno de R$ 2 mil. Eles não têm carteira assinada e pagam uma diária de R$ 20 para usar o espaço. Muitos foram formados lá mesmo, no curso gratuito de Pedro Damião Faria, um capixaba de 37 anos que vive sonhando acordado.
— Aqui, eu quero colocar dez poltronas. Ali, mais dez. A escola será em cima. Embaixo ficarão só os clientes — conta ele no segundo andar do imóvel, hoje fechado à espera de uma boa reforma.
OPORTUNIDADE DE EMPREGO
O passo a passo do desenho começa no telefone celular – Antonio Scorza / Agência O Globo
Faria — ou Pedrosa, para os mais chegados — mudou-se para o Rio há dez anos. Faz aqui o mesmo que estava acostumado a fazer em Cachoeiro de Itapemirim, a “capital secreta do mundo”, segundo Vinicius de Moraes, onde nasceram Rubem Braga e Roberto Carlos: dar oportunidade a jovens. Acredita que ser barbeiro é uma salvação para muitos, e vê isso todos os dias.
— Já ensinei a meninos que trabalhavam no tráfico, viciados, pessoas que não tinham nada. Todos só querem uma oportunidade na vida. Depois vai cada um para o seu canto. Não gosto que fiquem muitos anos aqui, quero que abram seu próprio salão, como esse aqui ao lado — diz, apontando para uma portinha ao lado da sua.
Entre os aprendizes, faz parte da lição cortar o cabelo de graça. Às sextas-feiras e aos sábados, das 18h até o último cliente, o salão é visitado por moradores de rua e usuários de crack que vivem na região — média de dez a 15 por dia.
Faria já teve problemas com clientes por causa dos atendimentos gratuitos. Muitos têm receio de que o equipamento usado para cortar os cabelos da população de rua seja o mesmo para atendê-los — mesmo que fosse, o material é esterilizado.
— Tenho o salão há dez anos. Já teve muito cliente que foi embora e não voltou mais. É gente que não se mistura. Não me incomodo. Mais importante é cortar o cabelo de quem precisa — diz.
Essa generosidade vem da roça, onde nasceu. Seu pai e seu avô cortavam o cabelo dos peões. Nunca ganhavam dinheiro em troca, mas, sim, comida, ou o que os trabalhadores rurais tivessem.
— Foi assim que aprendi, eu e meu irmão gêmeo, que ficou em Cachoeiro — conta o proprietário. — Lá, ele também corta de graça.
Sexta-feira é o dia de maior movimento no espaço de cem metros quadrados e paredes verdes descascadas. À noite tem baile funk no Jacarezinho. Jovens de várias idades chegam animados. Alguns fazem desenhos, mas o que todos querem mesmo é o famoso “corte do jaca”, um estilo nascido nos becos do Jacarezinho, que já ganhou favelas da cidade inteira — e até de outros estados. O corte também é chamado de “disfarçado” e consiste em um efeito tipo degradê no cabelo, obtido depois de se passar a máquina número dois, em seguida a número um e, por último, a zero. Custa R$ 15.
— Desse jeito, só esses caras sabem fazer. Em outras favelas ninguém acerta — garante Giovani dos Santos, de 21 anos, que vai ao salão toda semana, sempre antes do baile.
Danilo Coutinho, de 26 anos, barbeiro desde os 17, dá a explicação:
— O segredo é ter muita paciência. Aqui os clientes são mais exigentes do que na Zona Sul.
Um garoto magrelo deixa o salão cantando um funk do Jacarezinho: “Aqui no Rio de Janeiro, isso aqui já virou marca, os moleques tão lançando é o corte do jaca”. Antes de sair, despede-se: “Semana que vem eu volto”.
Fonte: O Globo
Foto: Antonio Scorza / Agência O Globo
Postado por: Raul Motta Junior