Pesquisadora resgata passado muçulmano do Rio

Quando se pensa nas crenças trazidas pelos africanos que chegaram como escravos no Brasil, a primeira religião que vem à cabeça talvez seja o candomblé. No entanto, há evidências cada vez maiores de que o Rio de Janeiro tinha uma colônia grande de muçulmanos. Essa foi uma das descobertas da historiadora Nilma Teixeira Accioli, que acaba de defender sua tese de doutorado sobre o tema, no curso de História Comparada da UFRJ. Segundo a pesquisadora, não é possível precisar quantos escravos islamizados a cidade tinha, já que a religião era praticada às escondidas.

— A Revolta dos Malês, que aconteceu em 1835 na Bahia, foi creditada a eles. Foram descobertos pedaços de orações entre os rebeldes; por isso, os escravos muçulmanos foram muito observados. Afinal de contas, eles foram capazes de organizar um levante. Além disso, a prática dessa religião é muito mais reservada — conta.

Uma informação curiosa resgatada pela historiadora é a de que esses muçulmanos praticavam um islamismo misturado com certos aspectos de feitiçaria. Até o final do século XIX, começo do XX, sabe-se que muitos atuaram como alufás (líderes religiosos), dando consultas, inclusive, para pessoas poderosas da época. Horácio de Sá Pacheco, que morava no número 222 da Rua Barão de São Félix, no Centro, era um deles.

Em 1907, quando foi preso por prática de curandeirismo, um repórter foi entrevistá-lo no cárcere. O jornalista teria perguntado se Pacheco era pai de santo e, muito sério, ele respondeu: “Não existe esse negócio de santo. Só existe Alá”. Por causa do apelido de Horácio Galinha, Nilma acredita que ele pertencesse aos Galinha, povo do norte da África, perto do Sudão. Outra figura importante da época era o imame (um dos principais da hierarquia da religião) Manuel Balthazar.

— Consultar uma dessas pessoas era garantir que tal pedido fosse acontecer. Um padre da época escreveu que se Maomé visse o islamismo que os escravos praticavam, ficaria horrorizado — diz ela, achando graça.

Uma das práticas místicas, por exemplo, era escrever orações em árabe em pequenas tábuas, lavá-las em bacias e dar essa água para o requerente beber. Nilma diz que o corão era muito vendido no Rio de Janeiro para escravos de ganho. Outra situação interessante era a vaquinha da alforria. Algumas igrejas, como a do Rosário, recebiam uma espécie de dízimo daqueles que conseguiam juntar algum dinheiro. Como o montante não era suficiente para comprar a liberdade do próprio escravo, eles juntavam as economias de todos os que tinham contribuído e uma criança sorteava o nome de um deles. Havia um consenso para libertar primeiro os alufás.

— Isso acontecia até para proteger o escravo de seu senhor, que poderia dizer que o dinheiro era dele — explica. — É uma pena que a região da Rua Barão de São Félix esteja tão degradada. Se fosse seguro, aqui poderia ser um ponto turístico, com suas memórias preservadas.

Fonte: O GLobo
Foto: Guilherme Leporace / Agência O Globo
Postado por: Raul Motta Junior