Abrigo de ônibus feito por carpinteiro encanta moradores de Niterói

A entrada da casa 178 da Rua Doutor Celestino, no Centro, fica aberta o dia todo. A escadaria que dá acesso ao local costuma estar cheia de pedaços de madeira de demolição e de móveis velhos recuperados de lixeiras. O que já não significa nada para uns, para o artista-carpinteiro Josemias da Silva Santos é matéria-prima. Conhecido como Juca, ele constrói prateleiras, mesas, bancos e penteadeiras no espaço que, além de moradia, tornou-se uma oficina. Sua principal criação, contudo, está na calçada: um abrigo de ônibus completo, com cobertura e bancos.

A recepcionista Regina Moura viu de perto o surgimento do abrigo e se diz encantada:

— No começo tinha só um banco, agora são três. O que não falta é espaço para nos sentarmos, protegidos do sol e da chuva. O que esse homem faz é um exemplo.

Juca é natural de Cristiano Otoni (MG) e está no Rio há 50 anos. Em Niterói, chegou há oito meses com mulher e quatro filhos. Autodidata, ele começou a trabalhar com madeira há oito anos, depois de ficar desempregado:

— Fiz umas coisinhas e vi que as pessoas gostavam. Aí, comecei a vendê-las.

A ideia de criar um abrigo no ponto de ônibus veio depois que colocou na calçada um dos bancos que construiu:

— Vi que as pessoas estavam usando para se sentar. Então fiz a cobertura.

Josemias da Silva Santos, o Juca, é natural de Cristiano Otoni (MG) e está no Rio há 50 anos – Guilherme Leporace / Agência O Globo
Os três bancos do ponto são diferentes, mas nem por isso destoam na composição do cenário elaborado pelo carpinteiro. Ele usou cabeceiras de camas para fazer os encostos, e as telhas são coloridas: tudo recolhido do lixo.

— Saio com a minha carroça e sempre encontro algo bom que dá para aproveitar — explica Juca, garantindo que não criou o espaço com a intenção de fazer propaganda do seu trabalho. — Faço para dar mais conforto às pessoas. Uma vez uma senhora perguntou em que poderia me ajudar. Disse que precisava comprar pregos, e ela me ajudou. Isso é muito recompensador.

Enquanto contava a história ao GLOBO-Niterói sentando num dos bancos há cerca de duas semanas, Juca foi abordado por um pedestre.

— Desculpe interromper, mas estou há um tempo querendo conhecer esse cara. Esse ponto está fantástico! Parabéns — elogiou o pedreiro Marco Antonio da Costa.

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Juca, orgulhoso, sorriu:

— Está vendo? É isso que faz valer a pena.

Segundo a prefeitura, há uma lei que garante a atuação de artistas de rua em logradouros públicos sem autorização prévia dos órgãos municipais desde que, dentre outras coisas, permitam a passagem e circulação de pedestres, bem como o acesso a instalações públicas ou privadas. A Secretaria de Ordem Pública informou que enviará uma equipe ao local para verificar a situação do abrigo.

Fonte: O Globo
Foto: Guilherme Leporace / Agência O Globo
Postado por: Raul Motta Junior