Existe um quase consenso a respeito de o carioca ter aversão à chuva. Mas quem pensa que o motivo é o simples fato de não poder usufruir das belas atrações naturais da cidade, está enganado. Para os moradores, tempestades geralmente são sinônimo de alagamentos. A questão é antiga e frequentemente causa prejuízos e riscos à população. Especialistas afirmam que as condições geográficas do Rio são naturalmente propensas às cheias, mas que existem maneiras de contornar a situação.
Segundo o presidente do Clube de Engenharia, Pedro Celestino, o maior agravante é o fato das regiões serem muito povoadas e próximas ao nível do mar. Quando coincide de cair uma chuva forte e o nível do mar estar alto, as galerias pluviais deixam de escoar.
— Não existem soluções de engenharia baratas para a questão. Os piscinões são uma opção. Outra seria um cinturão antes das saídas das galerias para o mar. O primordial é que a prefeitura faça manutenção adequada nas galerias existentes, para que funcionem com capacidade total — explica Celestino.
Para ele, seria necessário que a Defesa Civil fizesse uma atuação preventiva, informando a população sobre a possibilidade de alagamentos. Atualmente, esse trabalho é feito apenas em áreas consideradas de risco.
— Essa prática é adotada em países da Europa que sofrem com alagamentos. A partir do momento em que a população é avisada a tempo sobre o risco, há como se precaver contra prejuízos — conclui.
Para a diretora do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da PUC-Rio, Maria Fernanda Lemos, o fator decisivo para que o problema seja resolvido é uma gestão adequada. É preciso garantir a execução de planos e o cumprimento de regras de ocupação e construção.
— Construímos uma cidade num lugar com tendência histórica a alagar. Imaginamos que um sistema artificial daria conta disso, mas o Rio ficou impermeabilizado e fomos esquecendo de aprender com o que a natureza mostra — afirma Maria Fernanda.
Segundo ela, no decorrer dos anos foram priorizados sistemas de drenagem artificiais, enquanto os naturais foram deixados de lado.
— É uma cidade que tenta controlar a natureza à força, mas a natureza, principalmente a água, não aceita ser controlada à força — destaca.
A especialista explica que cidades do mundo todo têm sistemas mais modernos, com investimentos na renaturalização de rios e a união de soluções artificiais com opções de infraestrutura verde:
— São cidades em países com situação econômica, social e política que permite o investimento. As obras são caras.
A prefeitura apresentou recentemente uma série de propostas para tentar solucionar os alagamentos na cidade. Elas fazem parte do Relatório de Drenagem e Manejo de Águas Pluviais Urbanas, publicado em 29 de dezembro do ano passado no Diário Oficial do município. O documento, da Fundação Instituto das Águas do Município do Rio de Janeiro (Rio-Águas), faz parte do Plano Municipal de Saneamento Básico, que todas as prefeituras do país se comprometeram a entregar até o final de 2015. Além de apresentar os pontos com risco de alagamento, contém uma lista de intervenções que devem ser feitas para evitar novas inundações. Entre os maiores problemas apontados na região estão a expansão urbana, que descaracterizou grande parte da rede de drenagem natural por meio de obras de canalização, aterros e desvio dos cursos originais, sendo que a faixa litorânea foi a mais aterrada.
Entre as propostas apresentadas estão a de reverter os efeitos nocivos da urbanização nas áreas já consolidadas, minimizar os impactos futuros nas áreas em processo de urbanização e tratar as cheias rápidas com medidas de reservação. Ou seja, a instalação de reservatórios imediatamente após o final do trecho de alagamento. São os chamados reservatórios de “pé de morro”, intervenções mais baratas do que o alargamento das calhas.
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A Secretaria municipal de Saneamento e Recursos Hídricos informou que existem projetos de melhorias no sistema de drenagem na região. No Jardim Botânico estão sendo feitas obras no canal da Rua General Garzon e a implantação de galerias nas ruas Jardim Botânico e Pacheco Leão. Recentemente, acrescenta o órgão, foram feitas obras de melhorias no sistema de microdrenagem na Lagoa, com a instalação de tubulações que reduziram pontos de bolsões d´água, acabando com o problema num trecho histórico de alagamento próximo ao Jockey.
A Secretaria municipal de Conservação e Serviços Públicos informou que durante o ano equipes de suas 25 gerências executam um programa integrado de manutenção de drenagem nas vias principais e secundárias de todo o Rio. O serviço é intensificado nos meses que antecedem o verão. Nos últimos quatro meses, o órgão, com o apoio da Comlurb, concluiu a limpeza de mais de dois mil quilômetros de galerias de águas pluviais em todo o Rio.
COMERCIANTES CONTABILIZAM PREJUÍZOS
Como se não bastasse o transtorno para moradores e transeuntes, os comerciantes do Catete também sofrem e muito com os alagamentos. Além do contratempo pessoal, muitos acumulam prejuízos em seus negócios. O restaurante Big Néctar, na esquina da Rua do Catete com a Silveira Martins, por exemplo, é vítima frequente das enchentes desta época. O caso mais recente ocorreu no último dia 29, quando a chuva foi tão forte que todo o bufê do restaurante precisou ser jogado no lixo.
— Além de invadir o restaurante, os nossos clientes chegavam aqui encharcados. E sempre que se inclinavam para pegar comida, aquela água suja contaminava tudo — afirmou Ernesto Marques, gerente do estabelecimento. — Trabalho aqui há 14 anos, e isso se repete desde então. É um horror! As pessoas precisam subir nas cadeiras para esperar a água baixar, os idosos ficam quase sempre caindo.
João Antônio da Conceição, chaveiro com posto na Rua do Catete há 30 anos, teve que fazer obras de elevação na sua loja para lidar com os alagamentos frequentes. Ele colocou um piso de cimento e azulejos no chão para que seu estabelecimento ficasse mais alto.
— A minha barraca anterior até apodreceu depois de tantos episódios de chuva, então precisei tomar uma atitude. Essa elevação às vezes atrapalha, porque quando eu estou sentado os moradores passam e não me veem, pensam que o lugar está vazio.
o estande do chaveiro João Antônio da Conceição: cabine apodreceu – Hermes de Paula
Assim como o chaveiro, a loja de colchões , também na Rua do Catete, precisou ficar mais alta para não sofrer prejuízos com os alagamentos. No local, uma rampa foi construída há cerca de 15 anos para que a água não danificasse a mercadoria.
— Acho que os nossos governantes devem ter um pouco mais de cuidado com o Catete. O que acontece agora nos atrapalha demais. — afirma Leonardo Santos, gerente da loja.
Os comerciantes são unânimes: independentemente de terem ou não tomado providências para que seus produtos não sejam diretamente atingidos pelas águas dos alagamentos, todos eles sofrem com a falta de movimento quando a chuva atinge níveis mais altos. Eles afirmam que 20 minutos após o começo da chuva, a situação fica impraticável, e os transeuntes têm dificuldades de locomoção. Pesquisadores da Fiocruz destacam os riscos que o contato com a água das enchentes pode trazer à saúde.
— O problema principal é a leptospirose, que vem do contato da pele com águas contaminadas. — afirmou Valmir Laurentino, pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) da Fiocruz, acrescentando que a leptospirose causa inicialmente febre, dor de cabeça, dor muscular e calafrios, entre outros sintomas. Depois, ela se agrava para problemas hepáticos e renais.
O contágio pode acontecer sempre que alguém caminha por uma rua alagada, por exemplo. Mas além do contato direto, há outras possibilidades de danos à saúde. No caso de ingestão da água, corre-se outros riscos, como o de contaminação pela bactéria Escherichia coli, também conhecida como E. coli, que aparece na água infectada com fezes humanas. Esta bactéria causa cólica e diarreia.
Outra bactéria que surgem nas águas contaminadas é a salmonella. A contaminação pode se dar quando, durante uma enchente, a água do esgoto se mistura com a de abastecimento comum.
Outro pesquisador do ENSP/Fiocruz, Antonio Nascimento Duarte, destaca que a contaminação por vírus também é possível quando se ingere água infectada.
— Uma das doenças causadas por vírus nesses casos é a hepatite, em especial a hepatite do tipo A — afirma o pesquisador.
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Duarte acrescenta que micro-organismos protozoários, causadores de doenças como criptosporidíase, amebíase e giardíase também podem contaminar os que tiverem contato com a água das redes de esgoto.
Além deles, os helmintos, vermes parasitários, também podem ser transmitidos. São ovos e larvas que, diferente de vírus, podem sobreviver por um tempo longo, ainda que desidratados e sem um corpo que os hospede. Um exemplo de helminto é a ascaríase, popularmente conhecida como lombriga, que parasita o intestino humano e pode causar graves problemas.
Fonte: O GLobo
Foto: Marcelo Carnaval / Agência O Globo
Postado por: Raul Motta junior