No Largo do Machado, artista espalha cores num chão de giz

Ele não segue uma doutrina, mas desperta a admiração de quem tem fé. Habilidade para fazer arte com as mãos o peruano Kevin Mendo tem de sobra: há um mês, ele emprega seu talento para desenhar, com giz, figuras religiosas, como Jesus e Maria, na calçada do Largo do Machado.

— Gosto de arte clássica. Faço figuras religiosas porque as pessoas adoram, sentem-se atraídas, mas não sou uma pessoa religiosa. Respeito as crenças, mas não compartilho — afirma o artista de rua.

Kevin não frequentou um curso especializado. Ele diz que desenha desde criança e conta que aprendeu a técnica de uso do giz nas ruas, com amigos.

— O mais difícil é captar a expressão dos rostos. Gosto de realismo, então, faço questão que os olhos tenham vida — explica o artista.

Natural de Chimbote, na costa norte do Peru, Kevin passou os últimos oito dos seus 25 anos percorrendo países da América Latina. Viajou por lugares como Bolívia, Equador, Colômbia e Costa Rica, sempre vivendo de sua arte. No mês passado, aportou no Rio. Ele se instalou em um albergue no Morro da Babilônia e fez do Largo do Machado seu “escritório”. Trabalha duas ou três vezes vezes por semana, sempre à tarde, e costuma tirar de R$ 300 a R$ 500 por dia.

— Posso fazer um desenho em duas ou três horas, mas costumo levar cinco para terminá-lo. Quanto mais tempo gasto, mais gente atraio e mais dinheiro ganho — diz o artista, que escolheu o ponto por ser “um lugar muito concorrido”. — As pessoas apreciam a arte aqui, no Largo do Machado.

FOTOS E ELOGIOS

A atração é instantânea. Enquanto ele começava a desenhar a imagem de Nossa Senhora de Fátima (Kevin escolhe desenhos na internet, imprime tudo e os reproduz no chão), dezenas de pessoas se aproximavam para tirar fotos e elogiá-lo.

— Ele tem uma mão abençoada. Que coisa linda! Dá pena ver algumas pessoas pisando — afirma a aposentada Matilde Albuquerque.

— Não acho ruim que as pessoas pisem porque desenho na calçada, que é mesmo feita para todo mundo passar. Mas como é um trabalho muito diferente, a maioria respeita.

Kevin anda “encantado com o Rio”. Daqui a dois meses, ele segue para o México, embora pense em voltar a viver em solo carioca:

— Outro dia, uma menina bonita parou para me ver desenhando, puxou conversa e me roubou um beijo. O Rio é bom demais.

Fonte: O GLobo
Foto: Guito Moreto / Agência O Globo
Postado por: Raul Motta Junior