Enquanto se trava uma luta contra o tempo para montar hospitais de campanha que receberão os pacientes do coronavírus, na Coordenadoria de Emergência Regional (CER) Leblon, na Zona Sul carioca, há duas alas inteiras de CTI fechadas. Paradoxo, no entanto, que é apenas uma fração dos efeitos das sucessivas crises que atingiram o Rio nos últimos anos e que, agora, voltam a cobrar seu preço. Diante desse quadro, o estado começou a corrida para enfrentar a pandemia, em fevereiro deste ano, com 1.002 leitos a menos na rede pública que tinha no mesmo mês de 2016, segundo apontam os dados do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), do Ministério da Saúde.
Os números mostram que as unidades federais, estaduais e municipais fluminenses tinham 19.646 leitos de internação e complementares (UTIs e cuidados intermediários) quando o primeiro caso de Covid-19 foi registrado no Brasil, contra os 20.648 daquele começo de ano olímpico no Rio. Só na administração estadual, que sofreu duros golpes provocados pela derrocada econômica a partir do fim de 2015, foram 532 leitos fechados, a maioria vagas de internação. Nos municípios, outros 406.
A situação gera cenas como a do Hospital municipal Albert Schweitzer, um dos mais importes da Zona Oeste do Rio, em Realengo, que teve o CTI do terceiro andar fechado nesse período e nunca mais reabriu. A poucos quilômetros dali, o Hospital municipal Rocha Faria, em Campo Grande, segundo dados do CNES, perdeu 88 leitos de internação entre fevereiro de 2016 e o mesmo mês deste ano. E, na mesma região, o Hospital estadual Eduardo Rabello, em Senador Vasconcelos, que deveria ser referência para o atendimento a idosos (grupo de risco para a Covid-19), funcionários relatam uma quantidade reduzida de pacientes. Neste domingo, afirma um deles, no CTI havia um leito ocupado e cinco vazios.
– Podia ser um importante hospital geriátrico, mas tem várias alas fechadas. Não tem cama, respirador, material de insumo nem equipamento de proteção individual (EPI) adequado para os profissionais de saúde. O laboratório também não tem condições. Por isso chegamos ao ponto que temos hoje: cerca de 30 idosos internados na clínica médica e alguns poucos no CTI – afirma a servidora Clara Fonseca, diretora do Sindicato dos Trabalhadores em Saúde, Trabalho e Previdência Social no Estado do Rio (Sindsprev/RJ).
Maior parte das UTIs na rede privada
Especificamente quanto às UTIs, entre os meses de fevereiro de 2016 e de 2020, a boa notícia é que cresceu no Rio o número delas a serviço do Sistema Único de Saúde (SUS), de acordo com o CNES. Passaram de 1.289 leitos para 1.728, incluindo alguns localizados em entidades sem fins lucrativos e empresarias. A preocupação dos especialistas, no entanto, é que esse número ainda representava apenas 29,6% dos 5.843 leitos de UTI do estado, percentual bem abaixo da média nacinal (49,6%). O que aponta para uma oferta desigual à população que, em todo o país, só perdia para a do Distrito Federal (25,1%).
Pesquisador do Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da UFRJ, Leonardo Vidal Mattos calcula que, disponíveis aos usuários de plano de saúde, havia uma taxa de 7,8 leitos para cada 10 mil habitantes, mais que o dobro da recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) para condições normais, de 1 a 3 leitos por 10 mil habitantes. Aos que dependem do SUS, no entanto, essa taxa caía para perto do limite inferior do indicado: era de 1,5 para cada 10 mil habitantes.
– Nesse contexto, é importante ressaltar a média de ocupação dos leitos de UTI no SUS é de 90%, o que torna tão importantes as ações para liberar essa capacidade instalada, como adiar cirurgias eletivas. Contudo, pouco se tem discutido uma regulação integrada, que os leitos da rede privada também pudessem ser abertos ao público em geral, o que seria uma saída à sobrecarga prevista para os próximos dias – afirma Mattos.
Em 57 municípios fluminenses, sequer há UTIs a serviço do SUS, o que os torna dependentes de cidades vizinhas para esse tipo de atendimento. Quanto às vagas para internação, mesmo a capital – com maior capacidade financeira, mas também com suas crises de caixa nos últimos anos – experimentou um encolhimento nos últimos anos: passou de 4.033 leitos na rede da prefeitura em fevereiro de 2016, para 3.521 dois meses atrás.
Promessa de multiplicação de leitos
Parte do que se perdeu é recuperado agora, ao menos temporariamente, nos hospitais de campanha. A Secretaria estadual de Saúde promete que abrirá 3.414 leitos para o combate ao novo coronavírus na capital, Região Metropolitana e interior nas próximas semanas, 1.743 deles de UTI. No Instituto Federal de Infectologia da Fiocruz, do governo federal, ocorre a expansão de um hospital com 200 leitos para pacientes graves.
Já a Secretaria municipal de Saúde do Rio prevê 500 leitos, 100 deles de UTI, no Hospital de Campanha do Riocentro, além de 201 leitos de UTI no Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, dedicado exclusivamente aos cuidados de pacientes infectados pela Covid-19. Há ainda iniciativas de outras prefeituras, como a de Niterói, que arrendou um hospital privado que estava abandonado para abrir 140 leitos com respiradores e unidades de tratamento intensivo.
Apenas no Into, são 200 leitos vazios, diz ex-secretário
No entanto, ex-secretário municipal de Saúde do Rio, Daniel Soranz ressalta que, por todo o Rio, espalham-se, além de leitos públicos que foram fechados nos últimos anos, outros que estão impedidos de serem usados, sobretudo por falta de recursos humanos e insumos, e também os que poderiam receber pacientes da Covid-19, mas que estão vazios por questões burocráticas.
– Na noite do último dia 30 de março, nos hospitais da cidade do Rio havia 1.865 leitos (do SUS) impedidos, em alguns casos devido até a macas quebradas. Também havia dezenas de leitos livres em hospitais que suspenderam cirurgias eletivas, às vezes de alta qualidade, não ocupados porque não estão sendo liberados pela central de regulação para urgência e emergência. É o que ocorre no Into (Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia), o melhor hospital da rede em estrutura física, mas que tinha 200 leitos vazios, enquanto poderia se transformado numa unidade de referência para o Covid – defende ele.
Na rede do município, naquela noite, só na Coordenadoria de Emergência Regional (CER) Leblon, havia 23 leitos impedidos e, no Albert Schweitzer, eram 39. No Hospital estadual Carlos Chagas, em Marechal Hermes, somavam 51. E no Hospital Federal do Andaraí, 76.
– A primeira coisa que deveria ser feita é abrir os leitos que já existem e estão fechados por falta de profissionais e insumo – diz Soranz.
Já Rogerio Silveira, membro do Comitê de Neurointensivismo da Associação de Medicina Intensivista Brasileira (Amib), chama atenção para outro gargalo que deve ser um drama nos próximos meses.
– O esforço dos governos para montar os hospitais de campanha, por exemplo, tem sido o adequado. O que não sei é se teremos profissionais qualificados para dar essa assistência, com esse aumento súbito da demanda. Maior que logístico, acredito que é o de pessoas treinadas e capacitadas para atender esses pacientes – conclui ele.
Antes da pandemia, a Secretaria de Estado de Saúde informa que contava, na rede estadual, com 3.484 leitos, sendo 904 de UTI. Já A Secretaria municipal de Saúde do Rio admite os leitos fechados no CER Leblon e no Albert Schweitzer, mas afirma que eles serão reabertos. No caso do hospital de Realengo, diz que os leitos serão entregues após o término de obras na unidade, mas não especificou um prazo para que isso ocorra. Quanto ao CER, afirma que a responsabilidade pelo problema é da organização social que o administrava.
“No CER Leblon, duas alas do CTI foram fechadas arbitrariamente pela antiga gestora e, justamente por questões de má gestão como essa, a Secretaria Municipal de Saúde rompeu contrato com a organização social. A empresa pública RioSaúde assumiu a gestão da unidade há 10 dias e está trabalhando no reparo de equipamentos para a reabertura dos leitos”, afirma a prefeitura, em nota.
Já quanto à redução de leitos no Rocha Faria, diz que ocorreu devido a uma readequação na estrutura do hospital, “o que levou à exclusão de leitos excedentes e inadequados ao espaço físico da unidade”.
Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior