Ele bate ponto todos os dias numa empresa perto do Paço Imperial. Na hora em que o expediente acaba ou quando quer relaxar nos fins de semana, não vai muito longe. Entra em fila para visitar exposições no CCBB, se delicia com os espetáculos e a arquitetura do Teatro Municipal, publica no Instagram foto do Real Gabinete Português de Leitura para que seus seguidores admirem também essa joia escondida nas imediações do Largo de São Francisco. É assim, de forma intensa e apaixonada, que o administrador de empresas Caio Duarte, de 29 anos, curte o Centro do Rio. No pouco tempo livre que tem, ainda se desdobra para ajudar o próximo.
Há oito anos, Caio criou o Catadores do Bem, projeto social que ajuda quem vive da reciclagem. Sessenta famílias recebem do administrador cestas básicas e uma boa dose de autoestima. Uma vez por mês, ele oferece, na Praça da Light, em Irajá, bairro da Zona Norte onde mora, uma festa que começa com um café da manhã reforçado e atravessa o dia com gincanas. Tem até corte de cabelo gratuito para quem vive correndo atrás de material reciclável pelas ruas. Depois da experiência bem-sucedida no local, ele agora sonha em juntar a sua “cidade partida particular”. Planeja levar os catadores para conhecer o Centro, região da qual ele é íntimo, mas que não passa de um mistério a ser desvendado para a turma que ajuda.
— Os catadores não vão ao shopping, por exemplo, porque não se sentem bem naquele espaço. Os do meu projeto não conhecem o Centro porque simplesmente não andam de metrô. Quero levá-los para o Municipal, só preciso ver quando haverá ingressos populares. Eles vão ficar boquiabertos quando entrarem lá, assim como eu fiquei na primeira vez em que visitei o CCBB — diz Caio, que tenta fazer do “Catadores do Bem” um espaço de respiro na vida difícil dos homens e mulheres que participam do projeto.
A história desse administrador de empresas é a segunda da série “Rio de Gente”, que apresentará, ao longo do ano, a trajetória de anônimos que dão alma à cidade. A cada reportagem, pessoas comuns, porém inspiradoras, serão descobertas aleatoriamente em lugares emblemáticos da metrópole. No caso de Caio, foi o Edifício Menezes Côrtes, um dos mais movimentados do Centro.
Foi no térreo do prédio que Caio, normalmente calado, virou um orador entusiasmado para falar sobre seu trabalho voluntário. Ele não escondeu o orgulho pelo evento que promove na praça e é valorizado pelos catadores. Para um grupo que vive muitas vezes na invisibilidade, a ação traz uma inédita sensação de pertencimento.
— Quando faço festas em Irajá, eles levam até os parentes porque sabem que aquilo tudo é feito para eles se sentirem bem. Lá é um local de orgulho — diz Caio.
Ele conta que a ideia do acolhimento a catadores, que vêm de vários subúrbios do Rio, surgiu porque ele queria impactar positivamente a vida de algum setor carente da sociedade.
— Cada catador tem uma história diferente, mas, em geral, são vidas difíceis e precárias. A maioria é de mulheres. Há as chefes de família com muitos filhos, senhoras de quase 70 anos que cuidam dos netos. Temos casos até de mulheres que são exploradas pelos seus companheiros, usuários de drogas, e que precisam dar o que ganharam para eles — diz.
Com o pouco que tem, e sem sede própria para o projeto, Caio tem feito o possível e o impossível para dar um pouco de cor à vida dos catadores. Ele já levou o grupo ao cinema e agora espera proporcionar a mesma emoção que ele sentiu ao ir ao Centro pela primeira vez com a mãe, quando tinha 7 anos. O passeio foi tão marcante que Caio se lembra dele até hoje, 22 anos depois. Depois, vieram muitos outros, mas a Saara tem lugar cativo na sua memória.
—A minha mãe ia muito à Saara para garimpar coisas. A gente comia um salgado no árabe, um pastel. Era um dia cansativo, mas também muito produtivo. Tem sempre muita gente, muita informação, e isso faz a cabeça de uma criança ampliar ainda mais. Até hoje ir à Saara, para mim, é uma memória afetiva porque tem lojas de que eu sei que minha mãe gosta ou iria gostar.
Namoro complicado
A relação de Caio com o Centro passou, como toda paixão, por muitas fases. Depois de ser arrebatado na infância, ele ficou blasé na adolescência e conta que o amor só foi novamente fortalecido há cerca de três anos, quando passou a trabalhar na área. Mesmo assim, o namoro demorou a engatar: no início, ele fazia apenas o trajeto casa-metrô-escritório. Agora, com tudo dominado, é capaz de entender melhor a região e enxergar como a crise a modificou a paisagem. A quantidade de ambulantes no Largo da Carioca, por exemplo, aumentou muito, como ele observa.
— Eu gosto muito dessa bagunça, dessa quantidade de prédios diferentes em que um não “conversa” com o outro… Se tentarem arrumar isso, estraga. Se você tem um pouquinho de amor pelo Centro, você enxerga beleza naquele caos. Até na feiura —diz ele, admitindo que a conquista foi realizada aos poucos. — Eu demorei muito pra conseguir entrar e entender o Centro na hora do almoço, mas hoje gosto muito de caminhar por aqui sem destino, ver gente, ver o comércio. Gosto muito de andar por esse largo, mas também gosto de entrar nas praças públicas, como o Campo de Santana e o Passeio Público. É legal estar lá e ver que tem muita gente fazendo a mesma coisa, que se refugia no meio da confusão, respira fundo e depois volta para a vida.
Quando volta para a vida após relaxar no Centro, Caio não se esquece de Irajá. Nos últimos dias, diante da crise de abastecimento da Cedae, a pergunta que tem martelado em sua cabeça não é “quando a água vai deixar de ter gosto e cheiro de terra”. Ele quer saber onde vão parar todas as garrafas de água mineral consumidas nos prédios perto de seu trabalho.
— Fico preocupado porque muitos escritórios estão comprando muita água mineral e não há nenhuma logística para o descarte das garrafas. Não é nada organizado— reclama, revelando seu lema em relação aos catadores. — Se você não consegue ajudá-los, pelo menos não faça nada que vá piorar o dia deles.
Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior