Na vila onde a dona de casa Erika Araújo mora, no Cachambi, todos os moradores têm comprado água mineral desde o início da crise de abastecimento da Cedae. Lá, a cobrança feita pela estatal é única, dividida pelas cinco casas. A conta dá uma média de R$ 500. Sem água potável nas torneiras durante o mês de janeiro, os vizinhos esperavam que a fatura viesse mais barata. Mas não foi o que aconteceu.
— Não teve alteração nenhuma no preço. Continuou na média do que a gente paga, cerca de R$ 100 para cada morador. A deste mês veio num total de R$ 560, para falar a verdade. Se diminuiu o consumo, já que a gente não está bebendo água nem cozinhando, como aumentou o valor? A gente não deveria pagar conta nenhuma — reclama.
Erika está desempregada, mas apertou as contas e começou a comprar água mineral no dia 11, depois que o filho, Cauã, de 7 anos, passar por uma cirurgia para corrigir um problema nas pernas. São cerca de R$ 100 reais por semana só nas garrafas, disputadas no mercado.
Em Campo Grande, no salão da cabeleireira de Selma de Jesus, de 51 anos a conta d’água relativa a janeiro já chegou. Só que agora os costumeiros R$ 255 mensais cobrados pela Cedae se somam aos mais de R$ 700 que Selma já desembolsou em dois galões diários de 20 litros de água mineral comprados para funcionárias e clientes de seu empreendimento. O filtro elétrico está fora da tomada desde que a água saiu barrenta das torneiras.
— Isso quando não falta água! Hoje mesmo, ligamos e não tinha galão. Estamos o dia todo sem água para beber. Não atendi quase cliente nenhum por isso. Estou vendo o dia que vou ter que comprar água mineral para lavar cabelo de cliente. A água aqui ainda está com gosto e cheiro fortes — desabafa.
Na casa de Caroline Araújo, de 20 anos, a fatura da Cedae de janeiro mais que dobrou em relação ao valor de costume. A estudante de Psicologia mora com o pai, a mãe e a irmã mais nova em São Cristóvão. A conta d’água do prédio, dividida entre as unidades, fica em torno de R$ 400, mas a referente aos últimos 30 dias — justamente o período em que os problemas de abastecimento começaram — ficou em R$ 920.
— Achamos que a conta fosse diminuir, mas dobrou! — reclama a estudante.
Cheiro na água do carioca persiste
Desde que começou a crise da água no Rio, a dona de casa Lidiane Cândida, de 32 anos, na Tijuca, sente um cheiro ruim no cabelo e na pele da filha de seis anos após lhe dar banho. Então, ela joga uma garrafinha de água mineral no cabelo da menina após cada chuveirada. A pequena Ana Clara Andrade é alérgica e sua mãe teme que ela venha a ter alguma reação à água da Cedae.
— A criança sai do banho com a pele e o cabelo fedendo. E ela tem alergia, tem saído do banho espirrando — reclama Lidiane. — Até a roupa que a gente lava, se não coloca amaciante, fica fedendo. O arroz cozido com essa água muda de cor.
Na casa de da família, a água não chegou a parar de cair, mas na farmácia de Flávia Pércia, no mesmo bairro, a história é outra. Ainda que já tenha voltado, continua barrosa, com forte odor. A moradora do Cachambi de 46 anos tem comprado água mineral para casa e para seus funcionários. Desde o início do problema, já foram cerca de R$ 400 gastos.
— O Guandu fecha, e eu fico sem água na farmácia. A água voltou, mas com cheiro e partículas. Está insuportável. Eu estou trazendo água de casa para meus funcionários porque não tenho coragem de deixar eles tomarem essa água horrorosa — diz.
Já na casa da diarista Maria Madalena Medeiros, de 40 anos, a água não voltou. Assim como Lidiane, ela tem uma filha de 6 anos e se preocupa com a água que será oferecida a ela na volta às aulas, programada para esta quinta-feira:
— Lá em casa não cai nada desde ontem. Nem água boa nem ruim.
Pai de uma menina de 2 anos, o professor Hugo Dart, de 44, tem comprado água para a menina desde que a sua mulher passou a sentir um gosto estranho. E aparentemente os mercados estão apostando na preocupação da clientela com a água da torneira.
— Agora não está tão difícil de encontrar água mineral, estava pior antes — afirma.
Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior