O que se sabe e o que falta explicar sobre a água da Cedae com cor e odor alterados no Rio

Três semanas após a água apresentar turbidez, gosto “de terra” e cheiro desagradável, em 77 bairros do Rio e seis cidades da Baixada Fluminense, a Cedae iniciou o nesta quinta-feira, dia 23, processo de pulverização com carvão ativado na Estação de Tratamento de Guandu, em Caxias. A Cedae não informa, no entanto, quando o abastecimento estará normalizado. Segundo a empresa, isso vai depender da caixa d’água de cada moradia. Já o governador Wilson Witzel prometeu na quarta-feira que a situação da água fornecida pela Cedae será resolvida em, no máximo, uma semana.

Os moradores ainda estão preocupados com o consumo do líquido e permanecem comprando água mineral enquanto a água não sai límpida, sem sabor e sem odor das residências. Cerca de 20 dias após os primeiros relatos do problema e de sintomas depois da ingestão, dúvidas sobre as causas e consequências deixam os cariocas apreensivos. Veja abaixo o que já se sabe e o que ainda falta explicar sobre a água fornecida pela Cedae com cor e odor alterados.

Qual a explicação oficial dada pela Cedae?
A Cedae informou, no último dia 7, que detectou a presença de geosmina, substância orgânica produzida por algas, em amostras coletadas ao longo de sua rede de abastecimento. Ainda de acordo com a companhia estadual de água e esgoto, o crescimento de algas em mananciais, em decorrência de variações de temperatura, luminosidade e do índice pluviométrico, teria provocado a proliferação da geosmina. O fenômeno natural e raro, segundo a empresa, deixa água com “gosto e cheiro de terra”.

Quais testes foram realizados?
Segundo a Cedae, foram feitas análises em atendimento às exigências do Ministério da Saúde, conforme as normas legais, colocando a água dentro do padrão de potabilidade. De acordo com a estatal, amostras coletadas na rede de distribuição em 6 de janeiro indicaram ausência de coliformes totoais e de Escherichia coli — bactéria considerada um indicador de qualidade. Os testes também avaliaram três parâmetros físico-químicos: concentração de cloro, cor e turbidez, todas dentro da normalidade.

No entanto, um teste encomendado pelo “RJ1″, da TV Globo, trouxe dois parâmetros alterados numa água coletada em ponto de captação da Cedae em uma casa em São Cristóvão. O resultado do laboratório deu acima do máximo tolerado nos quesitos turbidez e bactérias heterotróficas, que podem servir de alimento para bactérias que causam doenças.

Especialistas desconhecem laboratórios públicos oficiais para detectar geosmina no estado e destacam que, como há floração de cianobactérias, é preciso saber se estão fazendo contagem e análise de cianotoxinas. Ou seja, para especialistas, mais testes precisariam ser feitos pela Cedae.

O que é a geosmina?
Especialistas explicam que trata-se de uma molécula, um organoclorado volátil, produzida por actinobactérias do solo ou cianobactérias aquáticas. A geosmina é considerada pouco tóxica, não traz risco à saúde, mas pode alterar o cheiro e o gosto da água. Mas apesar de a Cedae dizer que não faz mal, o engenheiro sanitarista e professor do departamento de engenharia sanitária e do meio ambiente da Uerj Adacto Ottoni afirma que a presença da geosmina indica a presença de outros componentes tóxicos.

Quando teve início a alteração?
Não se sabe quando a alteração da água teria acontecido. No entanto, moradores de São Cristóvão, na Zona Norte, e de diferentes bairros da Zona Oeste começaram a relatar que a água das torneiras estava turva, com forte cheiro e gosto de terra no dia 3 de janeiro. Nessa mesma data surgiram também as primeiras reclamações de cariocas passando mal após terem bebido a água, mesmo com filtro instalado em casa.

Por que a água está turva?
A geosmina não é capaz de deixar a água turva. A molécula é transparente, incolor, e nada tem a ver com casos de adoecimento dos quais a população se queixa. Apenas sujeiras são capazes de deixar a água escura, e a turbidez deve ser investigada. A água laranja ou vermelha (coloração acentuada) é inadequada, e é importante saber qual substância ou material está provocando a característica, como, por exemplo, solo ou ferro de encanamentos.

Uso da água filtrada e fervida é permitido?
Especialistas ouvidos pelo GLOBO alertam que, enquanto não for descartada a presença de outras substâncias além da geosmina, a água turva e com cheiro deve ser filtrada e fervida para beber, cozinhar, lavar o rosto e escovar os dentes. Para a filtração, o recomendado é o filtro de carvão ativado. Deve ser observada ainda a validade do filtro. Outra possibilidade para os cariocas é o uso de água mineral. No entanto, supermercados e depósitos ja registram falta do líquido.

Pode usar essa água para cozinhar?
O professor Gandhi Giordano recomenda que use água tratada em casa para lavar alimentos, cozinhar e escovar os dentes. Para os locais que a água não está turva, não há problema de lavar louça, roupa ou tomar banho direto com o líquido que sai das torneiras.

O filtro da torneira é o suficiente?
Geralmente, os filtros de torneira usam o processo de filtragem com areia. Segundo o químico Rafael Almada, o filtro de areia é responsável pelo processo físico de separação, que retém apenas partículas sólidas. O filtro de carvão ativado é mais indicado por filtrar partículas como a geosmina.

A água pode ser utilizada para o banho?
Infectologistas afirmam que não há problema tomar banho com a água turva e com cheio, sendo necessário apenas evitar que ela chegue ao rosto. Porém, ferimentos na pele impedem a utilização durante o banho.

Segundo o professor Gandhi Giordano, do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da Faculdade de Engenharia da Uerj, quem não notou alterações no aspecto da água pode manter seu uso normal. Ele observa que, por causa das férias, muitos edifícios ainda têm em suas caixas d’água o produto fornecido antes da detecção de geosmina.

O uso de cloro pode ajudar?
Para especialistas, o cloro deve ser usado apenas para desinfecção da água após o tratamento convencional. E tem que ser usado com muita cautela porque cloro acima de 2ppm reage com o PVC das tubulações domésticas e produz trihalometanos, altamente cancerígenos.

Há presença de outras substâncias na água?
Segundo a professora titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Sandra Azevedo, a geosmina não é capaz de deixar a a agua turva. A especialista afirma que a molécula é transparente e incolor. Ainda segundo Sandra, ela também nada tem a ver com casos de adoecimento dos quais se queixa a população. Para ela, apenas sujeiras são capazes de deixar a agua turva e, nessas condições, ela não deveria ser distribuída.

E os sintomas após o consumo?
Dores abdominais, enjoos, diarreia e vômito têm relação estreita com o consumo de água infectada. Esses sintomas têm variado de pessoa para pessoa. A prefeitura do Rio chegou a registrar um aumento do número de pacientes com diarreia e vômito em suas unidades de saúde, porém frisou que não é possível relacionar os casos a um problema no abastecimento da Cedae. Além disso, unidades de pronto atendimento (UPAs) da Zona Oeste tiveram aumentos de até 200% nos casos de diarreia, vômito e gastroenterite numa comparação com os registros feitos há um ano.

As crianças podem ter contato com água?
Pediatras aconselham que pais comprem água mineral ou fervam o líquido após passá-lo num filtro com carvão ativado. De acordo com o doutor André Luiz da Costa, pediatra e conselheiro do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj), afirma que não se deve deixar que crianças — e muito menos recém-nascidos — entrem em contato com esta água com cheiro. Este tipo de contaminação toxicológica, desta substância, é algo muito pouco conhecido.

A água prejudica os animais também?
Os animais estão expostos a doenças de veiculação hídrica assim como os humanos. Se a água estiver turva, não deve ser bebida por nenhum ser vivo.

Pode ser uma sabotagem com fins políticos?
A Polícia Civil iniciou uma investigação “para apurar eventual responsabilidade penal de funcionários da Cedae ou de terceiros que possam ter contribuído, por ação ou omissão, nas alterações das condições de consumo da água verificada nos últimos dias”. O presidente da companhia e outros diretores e funcionários já prestaram depoimentos nos últimos dias. Autoridades também estiveram na Estação de Tratamento de Água do Guandu para fazer diligências.

O governador Wilson Witzel afirmou disse na segunda-feira, dia 20, que a crise da água fornecida pela Cedae possa ter sido uma “sabotagem”. De acordo com ele, a intenção seria “manchar” a imagem da companhia estadual de água e esgoto para o leilão de concessão. Witzel, no entanto, não detalhou quais seriam essas ações para sabotar a Cedae, mas disse que o governo estadual trabalha para resolver o problema no fornecimento de água.

A população terá desconto nas contas?
A Cedae ainda não se pronunciou se vai dar desconto à população após os gastos extras com água mineral devido ao problema no abastecimento.

O que é preciso comprovar para reclamar contra a Cedae no Procon-RJ?
De acordo com o Procon-RJ, para abrir uma reclamação contra a Cedae por conta da crise de abastecimento de água, cada consumidor precisa ter em mãos os seguintes dados:

número do cliente (ou matrícula, disponível na parte superior da conta de água);
qual o teor da reclamação (por exemplo: restituição de valor pago na compra de água mineral, filtro de carvão ativado ou outro item em decorrência da qualidade da água);
valor reclamado;
documentos que comprovem o gasto (por exemplo: número da nota fiscal)
Ainda de acordo com a autarquia, em caso de despesas médicas em decorrência da qualidade da água fornecida pela Cedae, é necessário um laudo médico informando que a causa da doença foi a água.

Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior