Problema com a água da Cedae já atinge 71 bairros do Rio e seis cidades da Baixada; confira mapa

O início de 2020 não tem sido dos melhores para os moradores do Rio de Janeiro e da Baixada Fluminense devido aos problemas com a água fornecida pela Cedae. O número de bairros atingidos na capital subiu para 71, até o momento, depois que os primeiros relatos foram feitos há 14 dias. Na terça-feira, no levantamento inicial feito pelo GLOBO, residentes em 46 bairros do Rio e de seis cidades da Baixada se queixaram do abastecimento da estatal, que atribui o problema à substância geosmina. Na quarta-feira, as áreas atingidas chegaram a 69.

No mesmo dia, o presidente da Cedae, Hélio Cabral, falou pela primeira vez sobre assunto em uma entrevista coletiva. Ele iniciou a coletiva pedindo desculpas e afirmou que que “muito em breve” a situação será normalizada.

São Cristóvão, na Zona Norte, foi o primeiro bairro com denúncias de moradores. Com o decorrer dos dias, outros locais da região e da Zona Oeste registraram os mesmos problemas. Atualmente, as queixas atingem todas as áreas da capital. Levantamento foi realizado em redes sociais e reportagens. Confira nos mapas:

Os primeiros bairros com relatos (4 a 6 de janeiro)
Zona Norte (4): Anchieta, Costa Barros, Ricardo de Albuquerque e São Cristóvão

Zona Oeste (6): Campo Grande, Deodoro, Guaratiba, Jacarepaguá, Paciência e Santa Cruz

Os primeiros três dias com problemas água em bairros do Rio Foto: Editoria de Arte
Os primeiros três dias com problemas água em bairros do Rio Foto: Editoria de Arte

Até 9 de janeiro
Zona Norte (18): Anchieta, Barros Filho, Brás de Pina, Coelho Neto, Costa Barros, Grajaú, Madureira, Manguinhos, Olaria, Oswaldo Cruz, Pavuna, Penha, Piedade, Ramos, Ricardo de Albuquerque, São Cristóvão, Tijuca e Vila da Penha

Zona Oeste (14): Bangu, Barra da Tijuca, Barra de Guaratiba, Campo Grande, Deodoro, Guaratiba, Inhoaíba, Jacarepaguá, Paciência, Pechincha, Pedra de Guaratiba, Santa Cruz, Taquara e Vargem Pequena

Zona Sul (6): Botafogo, Copacabana, Gávea, Humaitá, Ipanema, São Conrado

Central (1): Centro

Baixada Fluminense (6): Belford Roxo, Duque de Caxias, Queimados, Nilópolis, Nova Iguaçu e São João do Meriti

Em seis dias, os problemas com a água afetaram mais bairros do Rio e cidades da Baixada Foto: Editoria de Arte
Em seis dias, os problemas com a água afetaram mais bairros do Rio e cidades da Baixada Foto: Editoria de Arte

Até 14 de janeiro
Zona Norte (22): Abolição, Anchieta, Barros Filho, Brás de Pina, Coelho Neto, Costa Barros, Grajaú, Madureira, Manguinhos, Olaria, Oswaldo Cruz, Pavuna, Penha, Piedade, Pilares, Ramos, Ricardo de Albuquerque, Rocha Miranda, São Cristóvão, Tijuca, Vila da Penha e Vista Alegre

Zona Oeste (15): Bangu, Barra da Tijuca, Barra de Guaratiba, Campo Grande, Cidade de Deus, Deodoro, Guaratiba, Inhoaíba, Jacarepaguá, Paciência, Pechincha, Pedra de Guaratiba, Santa Cruz, Taquara e Vargem Pequena

Zona Sul (8): Botafogo, Copacabana, Gávea, Humaitá, Ipanema, Laranjeiras, Leme e São Conrado

Central (1): Centro

Baixada Fluminense (6): Belford Roxo, Duque de Caxias, Queimados, Nilópolis, Nova Iguaçu e São João do Meriti

Em onze dias, os problemas já atingiram 46 bairros do Rio e seis cidades da Baixada Foto: Editoria de Arte
Em onze dias, os problemas já atingiram 46 bairros do Rio e seis cidades da Baixada Foto: Editoria de Arte
Até 15 de janeiro
Zona Norte (34): Abolição, Anchieta, Barros Filho, Bento Ribeiro, Bonsucesso, Brás de Pina, Campinho, Cascadura, Coelho Neto, Costa Barros, Guadalupe, Grajaú, Honorio Gurgel, Ilha do Governador, Irajá, Jardim América, Jardim Guanabara, Madureira, Manguinhos, Méier, Olaria, Oswaldo Cruz, Pavuna, Penha, Piedade, Pilares, Ramos, Ricardo de Albuquerque, Rocha Miranda, São Cristóvão, Tijuca, Vila da Penha, Vila Isabel e Vista Alegre

Zona Oeste (20): Bangu, Barra da Tijuca, Barra de Guaratiba, Campo Grande, Cidade de Deus, Cosmo, Curicica, Deodoro, Freguesia, Guaratiba, Inhoaíba, Jacarepaguá, Magalhães Bastos, Paciência, Pechincha, Pedra de Guaratiba, Realengo, Santa Cruz, Taquara e Vargem Pequena

Zona Sul (13): Botafogo, Copacabana, Gávea, Glória, Humaitá, Ipanema, Lagoa, Laranjeiras, Leblon, Leme, Rocinha, São Conrado e Vidigal

Central (2): Centro e Caju

Baixada Fluminense (6): Belford Roxo, Duque de Caxias, Queimados, Nilópolis, Nova Iguaçu e São João do Meriti

Até 16 de janeiro
Zona Norte (36): Abolição, Anchieta, Barros Filho, Bento Ribeiro, Bonsucesso, Brás de Pina, Campinho, Cascadura, Coelho Neto, Costa Barros, Guadalupe, Grajaú, Honorio Gurgel, Ilha do Governador, Irajá, Jardim América, Jardim Guanabara, Lins, Madureira, Manguinhos, Marechal Hermes, Méier, Olaria, Oswaldo Cruz, Pavuna, Penha, Piedade, Pilares, Ramos, Ricardo de Albuquerque, Rocha Miranda, São Cristóvão, Tijuca, Vila da Penha, Vila Isabel e Vista Alegre

Zona Oeste (20): Bangu, Barra da Tijuca, Barra de Guaratiba, Campo Grande, Cidade de Deus, Cosmo, Curicica, Deodoro, Freguesia, Guaratiba, Inhoaíba, Jacarepaguá, Magalhães Bastos, Paciência, Pechincha, Pedra de Guaratiba, Realengo, Santa Cruz, Taquara e Vargem Pequena

Zona Sul (13): Botafogo, Copacabana, Gávea, Glória, Humaitá, Ipanema, Lagoa, Laranjeiras, Leblon, Leme, Rocinha, São Conrado e Vidigal

Central (2): Centro e Caju

Baixada Fluminense (6): Belford Roxo, Duque de Caxias, Queimados, Nilópolis, Nova Iguaçu e São João do Meriti

Entenda o problema
O problema se intalou logo na primeira semana do ano, moradores vêm recebendo água com cheiro, gosto e cor fortes em casa. Relatos de pessoas passando mal após o consumo se multiplicam. Os estoques de água mineral evaporam dos supermercados. Na noite de terça-feira, o chefe da Estação de Tratamento de Água Guandu, Júlio César Antunes, foi exonerado após crise no fornecimento.

Na quarta-feira, durante a primeira coletiva de imprensa sobre o assunto, o presidente da estatal foi questionado sobre as 54 demissões de funcionários da companhia. Ele justificou os cortes alegando salários acima de R$ 35 mil, e garantiu que esses funcionários não faziam parte do controle de qualidade da companhia.

— Tínhamos cinco mil empregados e mais de 50% ganhando acima de R$ 35 mil, o que é incompatível com a média da empresa. Enquanto tínhamos um grupo de pessoas que estava completamente fora do padrão normal de salário da Cedae e do país. Isso representa uma economia de mais de R$ 100 milhões por ano. Essas pessoas estavam inclusive gerando problemas internos. Tinha pessoa ganhando 80 mil.

Nem todas as questões, no entanto, foram esclarecidas pela diretoria da estatal. Entre elas,a coloração da água. Segundo o presidente da Cedae, a mudança na cor é causada pela geosmina.

A Cedae atribui o problema à presença de geosmina, uma substância produzida por algas que seria inofensiva, em amostras coletadas em sua rede de abastecimento. A estatal afirmou, no entanto, que a água está própria para consumo. Especialistas questionam justificativa da Cedae.

A geosmina nada tem a ver com a água turva que chega às casas de moradores do Rio e menos ainda pode ser responsabilizada por casos de problemas intestinais, alerta a professora titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Sandra Azevedo. Ela é uma das maiores especialistas do país em cianobactérias e efeitos de poluição da água na saúde. Ela destaca que a população deveria ter acesso aos resultados detalhados de análises da água que consome.

Já o professor do Instituto de Microbiologia da UFRJ Marco Miguel explicou ao GLOBO que a metodologia usada pela companhia é adequada e os resultados são coerentes, no entanto, não foi informada a fonte da geosmina.

— Isto já é um indicativo da presença de matéria orgânica, mas não falam se a causa é do rio de captação ou dos reservatórios de tratamento deles— observou Miguel.

Segundo ele, a geosmina não é suficiente para dar cor, somente o cheiro. Também por isso, ele ainda considera necessário que o consumidor tenha cautela.

— A turbidez não é uma característica desejável na água potável. A água laranja ou vermelha (coloração acentuada) é inadequada. É importante saber qual substância ou material que está provocando a característica, como, por exemplo, solo ou ferro de encanamentos.

Em meio ao caos, cariocas destacam nas redes sociais o silêncio do presidente da estatal, Helio Cabral Moreira, que ainda não se manifestou sobre o episódio. Cobram também um posicionamento do governador Wilson Witzel, que, de férias em Orlando até esta terça-feira, também não se pronunciou.

Mas de acordo com a companhia estadual de água e esgoto, o crescimento de algas em mananciais, em decorrência de variações de temperatura, luminosidade e do índice pluviométrico, teria provocado a proliferação da geosmina. O fenômeno natural e raro, segundo a empresa, deixa água com “gosto e cheiro de terra”.

Segundo a Cedae, foram feitas análises em atendimento às exigências do Ministério da Saúde, conforme as normas legais, colocando a água dentro do padrão de potabilidade. De acordo com a estatal, amostras coletadas na rede de distribuição em 6 de janeiro indicaram ausência de coliformes totoais e de Escherichia coli — bactéria considerada um indicador de qualidade. Os testes também avaliaram três parâmetros físico-químicos: concentração de cloro, cor e turbidez, todas dentro da normalidade.

A Vigilância Sanitária também recolheu amostras da água em 15 pontos da cidade para análise, feita pelo Laboratório Municipal de Saúde Pública (Lasp), em São Cristóvão, na Zona Norte do Rio. Os índices atestaram a potabilidade da água nos pontos analisados, de acordo com os parâmetros estabelecidos pelo Ministério da Saúde. No entanto, não foram analisados a existência de geosmina na qualidade da água.

Qualidade da água
O Ministério do Estado do Rio (MPRJ) e o Procon Estadual (Procon RJ) vão investigar as denúncias de baixa qualidade da água fornecida pela Cedae nos últimos dias. Se houver comprovação de irregularidades, eles podem entrar com ações coletivas e, no caso da autarquia da defesa do consumidor, uma multa de até R$ 10 milhões pode ser aplicada.

Os consumidores que se sentirem lesados também estão aptos a entrar na Justiça para pedir indenização ou isenção do pagamento da conta e, dependendo do caso, até mesmo reparo por dano moral.
Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo