Você se lembra do Cristo Mendigo da Beija-Flor de 1989? E do Carro do DNA da Unidos da Tijuca de 2004? Eles têm em comum o fato de que, apesar do impacto que causaram, as duas escolas não foram campeãs. Por isso, vamos matar a saudade e conhecer histórias de dez desfiles que perderam, mas jamais serão esquecidos.
Por um ponto, a União da Ilha não virou Beija-Flor em 1977. Se somasse 86, teria sido a campeã do carnaval porque empataria com a escola de Joãosinho Trinta e lhe tomaria o título. As duas ganharam 9 em bateria, o primeiro quesito para desempate; mas no segundo, samba-enredo, a tricolor insulana foi a única a levar 10, com o inesquecível “Domingo” (de Aurinho da Ilha, Ione Nascimento, Adhemar de A. Vinhaes e Waldir da Vala), que conquistou o Estandarte de Ouro. Campeã, a agremiação insulana seguiria o exemplo da coirmã de Nilópolis, que no ano anterior quebrara a hegemonia de quatro décadas de Portela, Mangueira, Salgueiro e Império Serrano, fazendo disso um marco.
Não só a melodia encantou os jurados do prêmio do GLOBO aos melhores do carnaval, mas todo o desfile, já que a Ilha conquistou o troféu de melhor escola, e a carnavalesca Maria Augusta venceu na categoria personalidade feminina. Com toda a justiça, já que foi brilhante a mente daquela mulher de estatura imponente, muitas guias de santo (colares nas cores dos orixás), olhar às vezes severo e opiniões firmes, que todo o mundo do samba conhece — e respeita. Ela encarou escolas poderosas armada com muita criatividade, já que a União tinha subido para o Grupo Especial dois anos antes e vivia na maior pindaíba.
A história é cheia de lirismo, mas é preciso esclarecer que Maria Augusta nada tinha de quixotesca. Sua criatividade foi uma estratégia pensada com critério e racionalidade apurados desde os tempos de estudante da Escola de Belas Artes da UFRJ, onde foi aluna de Fernando Pamplona. Sem dinheiro para usar os espelhos que revestiram carros da Beija-Flor ou os paetês das fantasias da Portela, ela investiu em alegorias e figurinos coloridos. A ideia era causar impacto visual não só com o vermelho, o azul e o branco da União, mas também o amarelo, o verde, o laranja etc.
Tudo isso junto causou um efeito que ela chama de “o luxo da cor”, capaz de excitar o olhar dos espectadores da mesma forma que o brilho. Só que com custo menor e o cuidado para que o conjunto da escola não parecesse um borrão igual aos primeiros desenhos de criança com lápis de cera.
— Ela fugiu da implícita obrigatoriedade de usar as cores da escola — diz o jornalista Anderson Baltar, um dos autores do livro “As primas sapecas do samba”, sobre a história de União da Ilha, São Clemente e Caprichosos de Pilares
Se o planejado luxo da cor ajudou, o imponderável também fez a sua parte. Pela programação oficial, a Ilha, oitava a entrar na avenida, desfilaria por volta das 3h40m, mas só deu o ar da graça na Avenida Presidente Vargas pouco antes de o dia clarear. Santo atraso. O amanhecer por si só tem algo de mágico e ainda fez os tons das fantasias se multiplicarem. As primeiras alas passaram sob a luz dos refletores, e as últimas pegaram os raios do sol nascente. Os versos iniciais do samba-enredo — sobre o lazer no Rio no domingo — diziam “Vem, amor/ Vem à janela ver o sol nascer/ Na sutileza do amanhecer/ Um lindo dia se anuncia…”.
E a arquibancada aceitou o convite para ver o dia nascer feliz — sem precisar abrir a janela. Cantou o samba junto e logo começou a gritar “já ganhou”. Era impossível ficar indiferente porque, até então, nenhuma escola tinha dado tanta intimidade ao público. Enquanto o samba da Ilha dizia que no fim de semana “há os que vão pra mata/ Pra cachoeira ou pro mar/ Mas eu que sou do samba vou pro terreiro sambar”, as escolas que haviam passado antes tocaram em assuntos distantes do cotidiano do folião.
Bons exemplos disso foram a Portela, que antecedeu à Ilha, e a Mangueira, a quinta a desfilar. Uma hora antes de os sambistas insulanos saírem fantasiados de banhistas, jogadores de futebol e palhaços, a azul e branco de Madureira usou manto, coroa e cetro porque seu enredo, “Festa da Aclamação”, lembrou a cerimônia em que Dom João VI foi aclamado soberano no Brasil em 1818. O samba beirava a solenidade, com trechos assim: “Ao som de clarins, a corte se apresentou/ Em vários dias de festa/ A cidade se veste com seu traje mais novo…” e “Tribuna real/ Camarote e nobreza…”.
Já a Verde e Rosa veio com “Panapanã, o segredo do amor”, uma lenda indígena. O samba era pesado, tinha a palavra “plangência” e um verso que parecia título de tese de doutorado: “O mito em sua máxima expressão”. Nada contra o estilo de Mangueira e Portela. Ambas já eram senhoras em 1977 e não iriam sair por aí em trajes de banho porque respeito é bom, e elas gostam. Mas imagina a reação da plateia ao ver, depois de tanta prosopopeia, palhaços, crianças em parques de diversão e surfistas com prancha de isopor na Ilha. A identificação foi imediata. A intimidade até passou dos limites porque o refrão “No Rio/ Colorido pelo sol/ As morenas na praia/ Que gingam no samba e no meu futebol” ganhou uma paródia impublicável, indigna de estar neste texto que abre a série “Perdeu o título, ganhou a história”, sobre desfiles derrotados que ficaram para sempre na memória afetiva dos foliões.
— “Domingo” é o desfile fundamental para a definição da identidade da União da Ilha. O trabalho de Maria Augusta imprimiu à escola a marca do “bom, bonito e barato”, que a segue até hoje, e também foi um marco na história dos enredos. Afinal, a escola fugiu dos temas tradicionais e levou para a avenida uma verdadeira crônica do cotidiano, com uma narrativa lírica de um dos dias mais aguardados da semana — diz Baltar.
Três horas depois da Ilha, a arquibancada voltaria a gritar “já ganhou”, para a Beija-Flor, a penúltima desfilar na maratona de 12 escolas que terminou perto do meio-dia. O sol estava forte, e a escola de Nilópolis tirou partido disso com espelhos e material prateado e dourado nas fantasias e alegorias que ilustraram o enredo de Joãosinho Trinta, “Vovó e o rei da saturnália na corte egipciana”. O destaque Jésus Henrique veio de “Aton, o Sol do Egito”, fantasia que ganhou o primeiro lugar no concurso oficial de fantasias da cidade, na categoria luxo masculino. Foi uma das imagens mais fotografadas daquele desfile com a grandiosidade do astro-rei.
Mas ninguém esqueceu que horas antes foi possível acreditar que a criatividade venceria o poder econômico. O amanhecer sempre traz alguma esperança.
E SE FOSSE CAMPEÃ?
Como seria o carnaval hoje se a Ilha tivesse ganho em 1977? Cabe a pergunta porque as adversárias seguem o exemplo da vencedora para chegar ao título. A resposta será sempre indeterminada como em qualquer hipótese. Mas o mapa das notas dos jurados dá uma boa dica das conclusões a que os sambistas cariocas teriam chegado em caso de vitória insulana.
A Ilha foi a única nota máxima em samba-enredo, levando 5 dos dois jurados. Só a Vila Isabel somou nove pontos no quesito, enquanto apenas Salgueiro e Império Serrano ganharam oito. Tamanha superioridade, provavelmente, levaria as escolas a valorizarem mais a melodia do que o luxo. Da mesma forma, a tricolor cravou os dez pontos em enredo, assim como a Beija-Flor, o que talvez fizesse carnavalescos apostarem também em assuntos tão simples quanto o lazer do carioca aos domingos. O cotidiano disputaria espaço com o épico.
A vitória da União impediria o tricampeonato da Beija-Flor, em 1978, e o modelo da escola de Nilópolis poderia não ter se tornado tão dominante como é até hoje. Diante de três títulos consecutivos de Joãosinho Trinta, agremiações tradicionais ficaram inseguras e passaram a copiar seu estilo. Em 1979, a Portela contratou como carnavalesco Viriato Ferreira, que era figurinista da azul e branco de Nilópolis. E a Mangueira anunciava, em reportagem do Segundo Caderno do GLOBO de 7 de fevereiro de 1979, que viria com “visual mexido”, “ samba pauleira” e “baianas psicodélicas”.
— Creio que os rumos do carnaval poderiam ter sido diferentes. Imagino que seria possível ver, até hoje, um embate qualificado entre duas propostas de desfile. Infelizmente, na cabeça dos jurados, cristalizou-se um modelo competitivo e outro, seguido pela Ilha, apenas para “brincar” — afirma Anderson Baltar.
Fonte: O GLobo
Foto: Marco Antônio Teixeira / Agência O Globo
Postado por: Raul Motta Junior