Moradora do Jacarezinho, a dona de casa Márcia (nome fictício), de 52 anos, sempre conviveu com os tiroteios na favela. No entanto, em 2016, a violência chegou ainda mais perto. Policiais militares, acuados pelo tráfico durante um confronto, invadiram a casa dela. Após o episódio, sua rotina mudou. Ela deixou de sair de casa, de se divertir. Ao procurar ajuda, recebeu o diagnóstico de estresse pós-traumático. O caso de Márcia faz parte de uma pesquisa com funcionários da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) que moram em comunidades. O trabalho resultou na “Cartilha de Prevenção à Violência Armada em Manguinhos”, como antecipou Ancelmo Gois em sua coluna no GLOBO.
— Muitos conhecidos que moram na comunidade têm problemas de pressão alta ou tomam remédio de tarja preta. Eles nem sabem que tudo isso pode ter a violência como causa — disse Márcia, acrescentando que um dos PMs acabou sendo ferido dentro de sua casa.
Feito com 88 moradores de Manguinhos, Maré e Jacarezinho, o levantamento mostra que o sofrimento psíquico foi o problema mais citado pelos entrevistados: oito em cada dez responderam que a violência armada afeta sua saúde, de sua família ou de outras pessoas próximas.
Na pesquisa, 91% das pessoas ouvidas afirmaram que os confrontos também prejudicam a educação escolar. Nas respostas, eles afirmam que as crianças ficam sem estudar quando há conflitos na região. “Um mês quase todo sem aulas por causa dos tiros”, disse um dos entrevistados. “Saí debaixo de tiroteio para buscar meu filho na creche”, contou uma moradora da Maré.
Segundo o geógrafo Leonardo Bueno, do Programa de Promoção de Territórios Urbanos Saudáveis (Ptus), da Fiocruz, além de mostrar o impacto da violência na saúde das pessoas, a cartilha tem o objetivo de garantir direitos. Por isso, também ensina como os moradores devem reagir a uma abordagem policial, por exemplo.
— A ideia da cartilha surgiu da constatação de que os mais afetados pela violência são os moradores das favelas e os agentes de segurança pública. Identificamos também a necessidade ter um material informativo para todos — explicou Bueno, que mora em Manguinhos.
A cartilha está disponível para download no site da Fiocruz.
Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo