Pelo cemitério: a turma que faz passeios e selfies que são um assombro

O dia está lindo e você tem horas livres para curtir o Rio do jeito que quiser. Muitos cariocas nem titubeiam e escolhem logo um mergulho na praia ou uma volta num parque. Outros preferem um cineminha ou até mesmo um passeio no shopping, mas existe uma turma que gosta de fugir do óbvio e tem optado por lugares sem viva alma. Isso mesmo: os cemitérios estão caindo no gosto dos moradores do Rio, inclusive daqueles que têm a vida toda pela frente, como a menina Luana, de 6 anos, que viralizou na internet depois que sua irmã mais velha postou as fotos em que ela aparece, toda sorridente e serelepe, entre túmulos do Cemitério de Santa Cruz.

A menina, fã de filmes de terror e que já fez questão de visitar também o Cemitério de Campo Grande, virou rapidamente meme. E agora vai ser até mesmo homenageada pela Concessionária Reviver, que administra sete cemitérios da cidade. A diretora da empresa, Sandra Fernandino, enxergou por trás da imagem da menina, que quis visitar pela primeira vez um cemitério pouco depois de perder o avô, uma oportunidade de mostrar aos cariocas que não há nada de macabro em passear por entre jazigos.

— Temos uma proposta de ressignificação do espaço cemiterial e de atrair a população, até poque estamos perto de várias comunidades. Queremos mostrar que o cemitério é um lugar bonito, arborizado e tranquilo, onde as pessoas podem fazer visitas guiadas — afirma, citando o exemplo de Guaratiba, onde o cemitério já virou roteiro de caminhadas.

Foto do livro que Carlos Monteiro está preparando sobre o Cemitério São Francisco Xavier Foto: Carlos Monteiro / Divulgação
Foto do livro que Carlos Monteiro está preparando sobre o Cemitério São Francisco Xavier Foto: Carlos Monteiro / Divulgação
O espaço, quase sempre associado à tristeza de uma perda, pode ser também local de celebração, como provou a filha da professora Fabiana Sirvo. Alexia, ao fazer 15 anos, pediu à mãe que as fotos de debutante fossem feitas no São João Batista, em Botafogo. Os parentes viram com desconfiança, mas Fabiana sabia que a filha, que se vestia de preto e andava numa fase gótica, não encontraria cenário melhor. E acabou adorando o resultado.

— Achei belíssimo. Já familiares e amigos estranharam, mas não viram tema melhor para se encaixar no caso dela. Hoje ela está com 19 anos e não curte mais essa vibe. Porém, não se arrepende nem um pouco de ter realizado aquele sonho.

Um olhar com arte
Para o fotógrafo Carlos Monteiro, o assunto também não é tabu. Quando criança, ele fazia aula de educação física em um terreno vizinho ao Cemitério do Catumbi e muitas vezes, antes do exercício, passeava entre as esculturas. Pegou gosto e, mais tarde, passou a pesquisar o assunto. Lançou um guia sobre fantasmas cariocas, com um capítulo dedicado a cemitérios. Agora, depois de fazer mais de cinco mil fotos no Cemitério do Caju, selecionou 120 para outra obra.

— No livro, tem fotografias que, se a pessoa não tiver um olhar apurado, não vai dizer que são de um cemitério. A ideia é justamente enxergar o cemitério do ponto de vista da arte, como uma coisa lúdica, tirando toda a carga negativa que ele carrega — explica.

Enquanto Carlos volta os olhos para os monumentos em bronze, a costureira Andreia dos Santos Azevedo, de 41 anos, moradora em Duque de Caxias, prefere se voltar para si mesma. Ela adora fazer selfies entre os túmulos.

— Tenho pelo menos umas trinta fotos minhas no Facebook todas feitas em cemitérios. As pessoas falam que sou maluca, mas eu nem ligo — desdenha.

Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior