Na cidade que já foi a mais parisiense dos trópicos, as pessoas de bom gosto (e com dinheiro no bolso) faziam compras na Rua do Ouvidor. Era o início do século XX, e lá uma loja “chique” de artigos masculinos ocupava um belo edifício art nouveau com uma Torre Eiffel na fachada. Construído em 1905 pelo badalado arquiteto espanhol Adolfo Morales de Los Rios — o mesmo do Museu Nacional de Belas Artes —, o prédio do magazine Torre Eiffel só existe hoje na memória dos mais velhos e em fotos. Ele foi colocado abaixo (em 1967), como muitos outros ícones cariocas, assunto que acabou virando livro pelas mãos da arquiteta e editora Ana Borelli.
De tanto mexer com a história iconográfica do Rio, a arquiteta resolveu reunir numa única publicação os belos marcos da cidade que não existem mais. E foi revirando o seu baú de saudades — inclusive de lugares que não teve a chance de conhecer — que Ana deu forma a “Rio de Janeiro perdido” ( TIX Editora), que será lançado hoje, às 18h30m, na Livraria da Travessa de Ipanema. O livro traz 17 exemplos — com imagens e ficha explicativa — desse passado, como o Convento da Ajuda, na Cinelândia; o Morro do Castelo; o Chafariz da Carioca; a Casa da América e da China, na Rua do Ouvidor; o Mercado Municipal da Praça Quinze; o Pavilhão Mourisco, na Enseada de Botafogo; as exposições de 1908 e 1922; e a fábrica do Elixir de Nogueira.
Essa última era um extravagante edifício de 1916 projetado pelo arquiteto italiano Antonio Virzi, considerado o nosso Gaudí. Na Rua da Glória, misturava formas cilíndricas nos primeiros andares com estrutura retangular acima e era decorado por escultório de ninfas e outros elementos. Um dos mais sofisticados exemplares do art nouveau na América Latina, foi demolido em 1970, sob protestos. Carlos Drummond de Andrade escreveu uma crônica de adeus.
— A fábrica do Elixir de Nogueira chegou a ser tombada pelo valor arquitetônico, mas acabou destombada e ninguém nunca soube por quê — diz a arquiteta, contando que no lugar foi erguido um prédio residencial e que, no decorrer do livro, descobriu que o herdeiro do fundador da Elixir era seu tio-avô.
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Mercado da Praça Quinze
O Hotel Avenida, construído em 1910 na outrora Avenida Central (atual Rio Branco), é outra joia. O projeto passeava entre o neoclássico e o eclético e, com ares franceses, era um ponto tradicional até ser derrubado, em 1957. Lá foi erguido outro ícone: o modernista Edifício Avenida Central. Já o Mercado Municipal da Praça Quinze, com suas mais de 200 lojas, sobreviveu entre 1908 e 1962, quando foi alvo de um bota-abaixo para a construção da Perimetral — que também já se foi.
O Pavilhão Mourisco, de 1905, até hoje chama a atenção (em fotos) pela sua arquitetura árabe. Com restaurante e teatro, teve uma biblioteca infantil que foi gerida por Cecília Meirelles. Não resistiu ao Túnel do Pasmado, sumindo em 1952.
— As gerações mais velhas vão morrendo, e essa memória afetiva se perde. O livro faz um resgate para que os mais novos tenham essa vivência — explica Ana.
O livro tem prefácio do marido da arquiteta, o ex-secretário de Urbanismo do Rio Alfredo Sirkis. Traz mapas e seis casos de Rio Antigo recuperado, como a Villa Aymoré. Há ainda um jogo da memória: nele, perde quem termina com a carta sem par, a da “saudade do Rio”.
Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior