Parque Nacional de Itatiaia amanhece com tapetes de gelo

O silêncio rompido pelo ruído de vidro moído que se ouvia ao pisar a grama gelada, parecia antecipar o espetáculo que se revelou nos primeiros raios de sol. Pelo segundo dia consecutivo, o Parque Nacional de Itatiaia amanheceu sob extensos tapetes de gelo . Folhas petrificadas, estalactites e nascentes congeladas formaram o cenário de inverno na madrugada desta terça-feira, quando se registrou 3 graus negativos no parque mais alto do estado. Um espetáculo sentido, ouvido e visto.

– Minha barraca estava bem próxima a uma nascente, mas curiosamente o barulho de água correndo parou e o rio silenciou. Só quando deixei a barraca pela manhã é que vi que tinha congelado – comentou estudante paulista João Victor Piacecki Gonçalves Ribeiro, um dos poucos aventureiros que resolveram acampar no Parque, que chegou a registrar 8 graus negativos na segunda-feira.

Até mesmo o experiente monitor de ecoturismo Anthony Silva, que frequenta o parque desde a infância, se surpreendeu com as temperaturas baixas que este ano prometem atrair milhares de visitantes do parque mais alto do estado, onde ficam as Agulhas Negras.

– Este é com certeza o inverno mais rigoroso que já vi por aqui. Mas está muito bom. É um dos lugares mais incríveis para se curtir o frio – garante.

O casal Vilma e Júlio Bofarini chegou na véspera de Ribeirão Preto para experimentar o inverno no parque. Eles estavam entre os poucos aventureiros que arriscaram passar a noite no camping Rebouças.

– Fez muito frio. A garrafinha de água mineral congelou, e a geada entrou até mesmo por dentro da barraca, que tem revestimento térmico – contou.

Bem menos acostumada à friaca, Vilma contou que foi socorrida por outro viajante, que lhe emprestou um saco de dormir para 18 graus negativos:

– Juntei ao meu, que é para frio de dez graus e ainda assim acordei tremendo – contou.

O casal de Belo Horizonte formado por Lilian Machado e Marcelo Lóis também chegou ao parque na segunda-feira e pretendia fazer hoje a caminhada até o Pico das Agulhas Negras.

– É a primeira vez que durmo em cima do gelo, mas foi tranquilo, duas doses de uísque me ajudaram a segurar o frio – contou Marcelo.

“Meu pé virou um picolé”

LILIAN MACHADO
Geógrafa
Já Lilian sofreu com os pés.

– Meu pé virou um picolé. Eu até esquentei, mas meu pé passou a noite gelado, quase acordei Marcelo para esquentar água para eu pôr nos pés.

Geógrafa, especialista em climatologia, foi Lilian quem explicou por que, apesar de a temperatura ser mais baixa à noite, o frio foi maior ao amanhecer:

– Primeiro, a altitude. Ela é fundamental para este frio todo que a gente está sentindo aqui. Quanto mais alto um ambiente, menos gases atmosféricos ele tem. O que esquenta a atmosfera são os gases atmosféricos, que absorvem a radiação que vem da superfície e aquecem a gente. Aqui, já é um lugar que há menos gases. Além disso, ao longo da noite, o céu estava limpo, sem nuvens. E são as nuvens que, à noite, ajudam a manter o aquecimento da atmosfera, porque a radiação terrestre começa a ir para o espaço, reflete na nuvem e volta para superfície. Com o céu limpo, a atmosfera fica mais fria e o dia só esquenta quando o sol alcança a superfície – explicou a especialista que, ainda assim, pretendia se aventurar com o marido nos picos mais altos do parque.

Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior