A noite carioca é realmente uma criança: vive mudando seu foco para o que mais lhe chama a atenção. Na batalha por visibilidade, as tradicionais boates, com ambientes fechados, globos espelhados e luzes estroboscópicas, que sempre seduziram madrugadores noitada adentro, sofreram um baque. Hoje, apesar do aumento das opções de diversão à noite e dos preços variados, já não há muitos espaços como os de antigamente. As poucas que sobraram viraram símbolos de resistência.
Para os que não se importam de pagar mais de R$ 60 para entrar, clubes como Vitrinni, na Barra, Mariuzinn, em Copacabana, e Fabrika, no Alto da Boa Vista, não decepcionam ninguém. Os alternativos vão para locais como Casa da Matriz, em Botafogo, e a Fosfobox, em Copacabana. Em abril, o clube subterrâneo, que atrai os mais que moderninhos para a Rua Siqueira Campos, comemorou 15 anos de festas em seis dias da semana. Tocada por Cabbet Araújo, que tem no currículo as extintas Bunker e La Paz, a Fosfo sobrevive graças à insistência de seu mentor.
— Enquanto as pessoas que já têm poder aquisitivo abrem uma boate para se divertir, eu, nestes 20 anos, trabalho para ganhar a minha vida, para ter um futuro. Chego cedo, fico antenado, recebo projetos. Vivemos de ideias novas o tempo todo, isso aqui é muito laboratório — prega.
De reinvenção, a produtora Suzana Trajano, mais conhecida como a DJ Suzykill da festa Infame, entende. Criada em 2015, a night já rodou por casas como Fosfobox, Kitschnet, Cave e Teatro Odisseia. Para Suzykill, a questão, além de cultural, é econômica:
— Os produtores passaram a optar por lugares abertos em que podem montar o seu próprio bar, já que as boates ficam com todo o faturamento.
Produtor do Teatro Odisseia, o DJ Julio Trindade (ou Julio Himself), que busca um apelo mais popular para suas festas, diz que o público mudou muito nos últimos cinco anos. O agito foi trocado pelos barezinhos, e os frequentadores, que raramente têm mais de 24 anos, estão desempregados ou tiveram cortes na mesada.
— Casas que colocavam 1.500 pessoas numa noite em 2014, hoje, não conseguem mais de 400, 500. A crise é implacável —admite.
Festa Back to Black na boate Fosfobox, em Copacabana Foto: Gabriel Monteiro / Agência O GloboFesta Back to Black na boate Fosfobox, em Copacabana Foto: Gabriel Monteiro / Agência O Globo
O agitador cultural Leo Feijó acha que a iniciativa é vital para superar a omissão pública:
— Além da mudança cultural, houve queda no poder de consumo e faltam perspectivas para quem quer investir.
Já o empresário Ricardo Amaral, grão-mestre da noite que criou a antológica Papagaio e o Hippopotamus, é mais radical: a boate tradicional morreu.
— É uma tendência internacional — diz, acrescentando que boates perderam o lugar do flerte para o Tinder. — Antigamente, em locais como a Leopardo, você chegava e ia dançar com alguém. Hoje não tem mais. O único local do mundo onde isso está preservado é Londres.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior