“Ao amor do público”. A dedicatória de Mestre Valentim está numa das duas pirâmides no Passeio Público, primeiro parque construído no Brasil, inaugurado em 1783. Só que a inscrição no medalhão quase ninguém mais vê. Para chegar às esculturas de granito, é preciso enfrentar um caminho coberto de mato e outros obstáculos, como lixo, árvores caídas e até um bueiro com tampa quebrada. Parte das luminárias de época e das papeleiras está destruída. O cenário hoje do Passeio Público, obra original de Valentim e tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 1938, é de total desamor. O portão principal está trancado, e, próximo a ele, um pedestal vazio simboliza o abandono de uma área no coração da cidade que deveria ser destinada ao lazer e à contemplação dos cariocas.
Nesse pedestal, ficava uma das estátuas francesas desenhadas por Mathurin Moreau para a coleção Quatro Estações, de 1860, da Fundição Val D’Osne. Na última semana, quem visitava o parque podia apreciar as esculturas que representam o verão, a primavera e o inverno: a do outono não estava lá. Na sexta, em nota, a Secretaria municipal de Conservação (Seconserva) mostrou desconhecer o paradeiro da peça de ferro fundido, de cerca de 500 quilos.
A secretaria disse que fará vistoria nesta segunda-feira e, caso identifique a falta de uma das estátuas da coleção, registrará um boletim de ocorrência para, posteriormente, abrir licitação e refazer a escultura. Mas ainda há esperança: funcionários do órgão dizem que a peça — que chegou ao local no século XIX, direto de Paris, como parte das mudanças empreendidas pelo paisagista francês Auguste François Marie Glaziou — pode estar esquecida no depósito municipal.
Outras obras de arte do Passeio Público, no entanto, sumiram de fato. Entre elas, o busto do poeta Raimundo Correia, furtado no ano passado. O restante do conjunto de monumentos, apesar do restauro da área em 2004, pede socorro. Os jacarés da Fonte dos Amores, obra também de Valentim, estão sem parte dos rabos desde pelo menos 2017, assim como a Fonte do Tritão sem um dos braços. Mais triste é não ter data para ver de novo uma das peças mais emblemáticas do Passeio, que é a Fonte do Menino, de Mestre Valentim, que ficava nas costas da Fonte dos Amores. A Seconserva diz que a peça está no depósito, aguardando restauração. Todas as esculturas com problemas, afirma a secretaria, esperam por licitação. O órgão não dá prazos.
No portão do Passeio aberto ao público, voltado para a Cinelândia, havia na tarde de quinta dois guardas municipais. Este ano, a entrada principal deixou de funcionar. O gradil está em péssimo estado, com partes roubadas e outras totalmente deterioradas, sem contar os remendos.
Insegurança e mau cheiro
A sensação de quem visita o local é de insegurança. Entre os poucos frequentadores hoje, estão pessoas que usam o espaço como banheiro público. O mau cheiro dominava o parque semana passada, e havia árvores caídas (uma bem em frente à entrada, há pelo menos 15 dias). O espaço também parece não contar com varrição frequente, embora a Comlurb diga que o trabalho ali seja feito por quatro garis todos os dias. Sobre o mato que cobre boa parte da área, a companhia promete iniciar hoje a roçada.
O retrato atual contrasta com a história do Passeio. Lamentando o que classifica de “decadência completa do conjunto urbanístico”, o arquiteto e historiador Nireu Cavalcanti destaca que o primeiro parque do Brasil foi também o primeiro centro de estudo de botânica e primeiro espaço público a receber monumentos, tudo por ordem do vice-rei dom Luís de Vasconcelos.
— O Passeio Público era vanguarda total — diz Nireu, um apaixonado por Mestre Valentim e que conta os costumes da época no livro “O Rio de Janeiro setecentista”. — Dom Luís convocou a sociedade a passear e estabeleceu regras de como as pessoas educadas deveriam circular ali e apreciar a natureza. Não podia falar alto, cuspir nem jogar lixo. A sociedade ia com a roupa mais enfeitada que tinha.
Para Nireu, o Passeio foi também um marco porque forçou a sociedade colonial a ter “urbanidade”, no sentido de educação.
— É uma joia que, infelizmente, você vê agora abandonada — afirma ele, que tem uma proposta para dar vida ao lugar: que os alunos da Escola de Música da UFRJ adotem o espaço, atraindo público, e que ele seja transformado em palco de atividades culturais constantes, como feiras de arte.
A Fundação Parques e Jardins (FPJ), subordinada à Seconserva, diz que estimula parcerias público-privadas por meio do programa Adote.Rio e que fará uma vistoria no espaço para avaliar os problemas. O órgão ressaltou ainda que cabe à Polícia Militar fazer o patrulhamento no Passeio e não à Guarda Municipal. Já a PM, em nota, informou que a segurança patrimonial é competência do município, mas que atua em flagrantes ou quando é solicitada.
Verba para pracinhas
A manutenção de todos os monumentos e chafarizes da cidade (são 1.374) é feita, de acordo com a Seconserva, por meio de um contrato de R$ 820 mil, válido por 12 meses. Mas, segundo a vereadora Teresa Bergher (PSDB), o orçamento da prefeitura previa R$ 150,3 milhões este ano para urbanização de praças e áreas de lazer e esportivas. Nenhum centavo foi gasto até agora, diz a vereadora. Reportagem do GLOBO mostrou ontem que a prefeitura lançou este ano licitações para reformar 77 pracinhas na cidade e deve gastar R$ 23,5 milhões.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Alexandre Cassiano / Agência O Globo