Quatro dias depois do vendaval, ainda há áreas sem energia elétrica no Rio

Já faz quatro dias que ventos de 105 quilômetros por hora varreram o Rio. Mas há bairros em que os moradores continuam sem energia elétrica. Na Travessa Cassiano, perto do Largo do Curvelo, em Santa Teresa , são mais de 30 casas no escuro, depois de o vendaval ter derrubado árvores e um poste, o que destelhou uma casa e destruiu uma pracinha. E quando a Light apareceu para tentar fazer os reparos, nesta quinta-feira, estourou uma tubulação da Cedae, criando uma cachoeira que desce a ladeira. Além da falta de luz, quem vive na região agora teme ficar sem água.

— No feriado desta quarta-feira fizemos um protesto. Só a assim a Light apareceu. Eles prometem restabelecer a energia nesta quinta-feira. Vamos ver… Até esta manhã os fios continuavam energizados. Corremos um grande perigo, porque, no feriado, fomos nós mesmos, moradores, que fizemos um mutirão para tirar os galhos da travessa — conta o morador Rafael Nascimento.

Muitos vizinhos dele já foram para a casa de parentes, sobretudo os que dependiam da energia para tratamentos de saúde, como nebulizações constantes. Dona Esmeralda Helena dos Santos, de 72 anos, resolveu ficar em casa, com lanternas e velas acesas. Para a comida não estragar, ela esvaziou o freezer e a geladeira. Levou as compras para a casa de uma irmã, mas resolveu não arredar o pé dali, apesar do breu à noite.

— Faço almoço cedo, em grande quantidade, para sobrar para o jantar. Como aqui entra pouca luz, às 16h já está tudo escuro. Não se enxerga nada. Nunca passei por uma situação como esta. Passar algumas horas sem luz já é terrível. Quatro dias, um suplício — diz ela.

A Light afirma que a falta de energia, agora, é pontual, bem localizada, e que trabalha para realizar os reparos. Nas redes sociais da própria concessionária, clientes relatam que os problemas persistem em bairros como a Gardênia Azul e Guaratiba, na Zona Oeste, assim como em regiões como a Estrada da Gama, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.

No Morro Dona Marta , em Botafogo, a falta de luz atinge casas da favela desde as chuvas de meados de abril. Com a ventania do último domingo, a situação piorou. Os moradores destas áreas da comunidade realizaram uma manifestação durante a noite desta quinta-feira. Com a falta de energia, a água também não chega às residências.

— Além de trechos sem luz, há muitas casas sem água. Para piorar, o plano inclinado não funciona há duas semanas — afirma o morador Gilson da Silva.

Em algumas áreas, como a Rua Ambari Cavalcanti, em Inhaúma, a luz só voltou nesta quinta-feira pela manhã. Os consertos na Estrada Dom Joaquim Mamede, em Santa Teresa, também foram concluídos no fim desta manhã. Mas o cenário em alguns trechos ainda era de destruição. Pouco antes da Estrada do Sumaré, um poste de iluminação pública pendia em direção à rua, sustentado, em parte, pela fiação. Os motoristas precisavam fazer ziguezague para desviar dos muitos galhos, árvores e pedras no caminho.

Já na Tijuca, na Rua Conselheiro Zenha, a energia foi restabelecida na terça-feira à noite. Mas os galhos que derrubaram os fios continuam lá, amontoados em frente a um prédio, na esquina com a Rua Piracicaba. A moradora Maria Aparecida de Carvalho afirma que já acionou três vezes o serviço 1746, da prefeitura, para pedir a remoção da montanha de sujeira ainda não recolhida pela Comlurb. Até agora, segundo ela, não obteve resposta.

Maria Aparecida conta que, depois de dois dias sem luz e de muitos prejuízos, os vizinhos e ela criaram um grupo de WhatsApp para se mobilizar por melhorias na rua. Uma das principais demandas, diz ela, é a poda de árvores, para evitar que os contratempos do domingo passado se repitam.

— Vamos levar os problemas à Superintendência Regional da Tijuca. A poda preventiva, por exemplo, é fundamental. O clima mudou. Não precisamos esperar que novos transtornos ocorram. Precisamos pensar em soluções para isso — afirma ela.

Segundo a Comlurb, após a tempestade do domingo, foram registradas 211 ocorrências de quedas de árvores e grandes galhos em toda a cidade. Todas elas, segundo a companhia, foram removidas. Não há, porém, dados sobre galhos menores que caíram e já foram recolhidos.

“Não há como sabermos a quantidade de galhos removidos porque eles são levados junto com outros tipos de resíduos recolhidos nas ruas”, afirma a Comlurb, em nota.

Licitação da PPP da iluminação pública é autorizada
Enquanto a população ainda sofre em algumas regiões, um projeto que pode ajudar a contornar a escuridão nas ruas do Rio avançou nesta quinta-feira. A prefeitura do Rio publicou em Diário Oficial a autorização para a abertura de licitação de uma Parceria público-privada (PPP) da iluminação pública na cidade. Além de cuidar dos pontos de luz, a empresa que vencer a concorrência será responsável pela implantação do programa Smart Rio, com wifi, câmeras de videomonitoramento e bueiros inteligentes a várias áreas da cidade.

Um edital preliminar já foi publicado na página da Subsecretaria de Projetos Estratégicos. Segundo o município, no entanto, esse texto se destinou à realização de consultas públicas sobre o projeto, conforme exigência legal.

“Após a Consulta pública e audiência pública, a sociedade envia suas dúvidas, sugestões e críticas, o que enseja em alterações de redações, caso o município entenda pertinentes. Todas as contribuições da sociedade foram analisadas e algumas acatadas, levando alterações nas minutas. Nesse momento, estas alterações estão em revisão final pela RioLuz com a participação da Procuradoria Geral do Município, Controladoria Geral do Município e outros órgãos que devem também opinar antes da publicação do texto final”, afirma a prefeitura.

No edital preliminar, eram previstos investimentos de R$ 1,3 bilhão. Entre as atribuições da empresa ganhadora da licitação, estariam a gestão das aproximadamente 436 mil fontes de luz da cidade, além da implantação e operação de 1.200 câmeras de videomonitoramento, de 200 pontos de acesso de wifi e de um sistema de retenção e gestão de resíduos, composto por 2 mil bueiros localizados nas principais áreas de alagamento da cidade.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior