Falta de conservação e obras inacabadas estão entre os problemas enfrentados por ciclistas

Está no Plano Estratégico da Cidade do Rio de Janeiro 2020: 81,2% dos ciclistas cariocas pedalam cinco ou mais dias por semana, sendo que metade utiliza a bicicleta como modo de transporte há menos de cinco anos e 34,8% a combinam com outro modo de transporte. A circulação crescente de bikes pelas ruas da cidade é notória, mas, além do problema de segurança — que vitimou o empresário Artur Vinícius Sales, há 20 dias —, os ciclistas da Barra e dos bairros vizinhos enfrentam muitos outros percalços. Pista com irregularidades, pintura apagada, carros estacionados (ou trafegando), atravessadas por galhos baixos demais ou raízes de árvores, poças d’água e obras jamais concluídas são alguns deles. O GLOBO-Barra percorreu as principais rotas cicloviárias da região e mapeou os problemas.

A Ciclovia da Freguesia é motivo de queixa frequente dos usuários. Na Avenida Tenente Coronel Muniz de Aragão, na altura do número 141, por exemplo, uma árvore cujo tronco envergou em direção à pista põe em risco o ciclista desatento. A fisioterapeuta Carla Paz, moradora da Freguesia, passa pelo local diariamente. Atende em domicílio e usa a bicicleta para se locomover. De sua casa até o Bosque da Freguesia, ela divide a rua com os carros ou a calçada com os pedestres. Quando, enfim, chega à ciclovia, precisa continuar alerta.

— O ciclista não tem espaço. Na rua, há o risco de ser atropelado e, na calçada, o pedestre reclama. Nas áreas em que há ciclovias, o problema é a falta de manutenção. Vejo vários outro no caminho até a Estrada dos Três Rios, como falta de pintura e conservação — diz Carla, diante de um bueiro sem tampa, na altura do número 1.032, sinalizado com madeira e papelão.

Na altura do número 2.100 da mesma Tenente Coronel Muniz de Aragão, no Anil, as magrelas disputam — e perdem — espaço com os carros estacionados irregularmente sobre a ciclovia. O vigilante Altamiro Oliveira, morador da Gardênia, conta que a principal alegação dos motoristas para cometer a infração é “não atrapalhar o trânsito”.

O bueiro sem tampa é só um dos entraves no caminho da fisioterapeuta Carla Paz Foto: Roberto Moreyra / Agência O Globo
O bueiro sem tampa é só um dos entraves no caminho da fisioterapeuta Carla Paz Foto: Roberto Moreyra / Agência O Globo
— Passo aqui indo para o trabalho. Isso desgasta a pista, causa buracos. Às vezes tenho que ir para a rua, mesmo estando com minha filha na garupa — lamenta Oliveira, enquanto empurra a bicicleta por um trecho junto ao meio-fio.

Próximo à Cidade de Deus, a equipe do GLOBO-Barra viu contêineres da Comlurb sobre a ciclovia.

No mesmo dia, na Avenida Salvador Allende, o aposentado Roberto Candido Machado completava sua pedalada matinal quando se deparou com problemas que conhece bem, como uma larga rachadura, onde já vegetação crescida, na altura da estação do BRT do Morro do Outeiro.

— Nesta área há muitos trechos com desnível e rachaduras na pista. Depois do Parque Olímpico, em direção à Jeunesse Arena, deveria haver sinalização para o ciclista andar na ciclovia. Andamos direto no alfasto para pegar velocidade — admite.

Na Avenida Embaixador Abelardo Bueno, onde fica a Arena, outro problema é a falta de pintura da faixa entre os números 4.801 e 5.001. O cenário se repete na Avenida Olof Palmer, onde a faixa compartilhada tem pintura desgastada, buracos e falta de sinalização, próximo a uma entrada do Riocentro. Contornando o centro de eventos, a ciclovia da Rua Abrahão Jabour tem elevações próximo a uma árvore com raízes crescidas. Mesmo quem passa a pé muitas vezes tropeça.

Educação é essencial
Entre as propostas contidas no Plano Diretor da cidade está promover melhorias na malha cicloviária, proporcionando infraestrutura adequada para estimular o uso da bicicleta. Uma das medidas seria “a continuidade da malha, resolvendo a carência de ciclovias nas zonas Norte e Oeste, assim como de bicicletários para incentivar o uso regular da bicicleta”.

No entanto, a prometida ciclovia que ligaria a Praia do Recreio a Vargem Grande, por exemplo, ainda é um sonho sem data para virar realidade. Após negociações com a prefeitura e muitos protestos, as obras começaram, em julho de 2015. Dois dos quatro quilômetros de pista previstos para a Estrada Vereador Alceu de Carvalho foram feitos. Em seguida, o trabalho parou, antes de chegar ao ponto mais crítico da via, onde praticamente não há calçadas e resta aos ciclistas trafegarem pelo acostamento.

O empresário Rogério Appelt, que participou da mobilização pela construção da ciclovia, diz que após a última eleição municipal as negociações ficaram mais difíceis, apesar de terem havido reuniões com representantes da Secretaria municipal de Conservação e Meio Ambiente (Seconserma). À frente do grupo do Facebook Quero Ir De Bike Das Vargens à Praia Sem Ser Atropelado, ele parou de cobrar uma resposta do poder público.

— A ciclovia (até agora) atendeu à parte mas nobre da região, com condomínios de luxo. A grande massa, que usa bicicleta para trabalhar ou estudar, passa pela beira da estrada — reclama.

Para o fundador da Comissão de Segurança no Ciclismo na cidade do Rio de Janeiro, Raphael Pazos, é preciso reconhecer que o uso da bicicleta como meio de transporte está se popularizando e acompanhar a tendência com investimento em infraestrutura e educação para o trânsito. Ele ressalta que as faixas de rolamento também são espaço para bicicletas, o que nem sempre se respeita.

— A maior luta é para deixar a população consciente de que lugar de bicicleta é na via pública — diz Pazos. —O problema não é específico da Barra, e sim do Rio como um todo. A bicicleta está no Código de Trânsito Brasileiro. As ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas existem para dar mais segurança para o deslocamento e o Enxergamos o aumento expressivo do uso das bicicletas, e nosso dever, como comissão de segurança é ajudar os órgãos a entenderem isso.

Quando a ressaca levou o calçadão da Praia da Macumba, em 2017, a ciclovia local, que vai até o Pontal, acabou parcialmente arrastada pelo mar. A pista foi refeita no ano seguinte, dentro das obras de recuperação da Praia da Macumba. Mas ainda está sem pintura e fica parcialmente coberta pela areia, o que camufla os desníveis. O auxiliar de serviços gerais Rodrigo Oliveira, que usa diariamente a ciclovia, para ir de sua casa, no Terreirão, até o trabalho, na Estrada do Pontal, já sabe onde estão os problemas.

— Andando a gente sente as lombadas. Achei tudo malfeito. No Recreio praticamente não há ciclovias. O jeito é vir pela da orla mesmo — conforma-se. — Vejo muitos carros passarem por cima da ciclovia e ficarem preso nos segregadores (instalados para delimitar a ciclovia).

Na Avenida Pedro Moura, no Recreio, na altura do número 35, folhas de árvore dificultam distinguir, na calçada, os limites da pista para as magrelas. Próximo à entrada do Parque Natural Municipal de Marapendi, uma elevação abrupta do asfalto requer atenção.

— Além de dividirmos espaço com pedestres, há os buracos. Na volta para casa, sempre preciso fazer reparos na bicicleta — conta Ana Cleudes Ribeiro, funcionária de um restaurante do bairro.

Na Avenida Alfredo Balthazar da Silveira, há trechos sem pintura e com piso áspero. Diante do número 13.033 da Avenida das Américas, a situação é a mesma.

De todas, a Ciclovia Tim Maia, que liga o Leblon à Barra, é a que mais preocupa. No temporal da última segunda-feira, mais um trecho da pista desabou, próximo à entrada do Vidigal. Foi o quarto acidente desse tipo. O GLOBO-Barra enviou as queixas e demandas dos ciclistas ouvidos nesta reportagem para a prefeitura, mas, até o fechamento desta edição, não obteve respostas.

Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior