“O que atrai na região é o ar lavado e agreste, as dunas que não parecem ter fim e aquela sensação de estar num mundo intocado primevo. Assim, o primeiro impulso, instintivo, há de ser sempre o de impedir que se faça lá seja o que for. Mas a sua intensa ocupação é, já agora, irreversível”. Com um apaixonado discurso urbanístico, Lucio Costa sintetizou, há 50 anos, no prefácio do plano piloto para a Baixada de Jacarepaguá, a ingrata tarefa que lhe tinha sido confiada.
Ao longo das 14 páginas escritas com um punhado de mapas, em que expôs seu conceito, uma preocupação do arquiteto era patente: a contradição imposta entre a urgência expansionista da cidade e a importância de se preservar áreas verdes. Não por acaso, meia década depois, apesar das desvirtuações do projeto original, o equilíbrio entre arquitetura e ecologia é tido como um de seus legados.
— No primeiro voo que fez sobre a área, o professor Lucio se deparou com um mundo de lagoas, areais e uma vegetação exuberante. Era fundamental prever esse processo de ocupação de forma a se conciliar a urbanização com a preservação ambiental. Isso foi vislumbrado por ele há 50 anos e, nesse sentido, há um gigantesco mérito na obra de Lucio Costa — avalia o arquiteto Gerônimo Leitão, autor do livro “A construção do Eldorado urbano: o plano piloto da Barra da Tijuca e da Baixada de Jacarepaguá”.
Embora tenha sido projetado para a Baixada de Jacarepaguá, o plano piloto era visto por Lucio Costa como a solução urbanística para toda a Guanabara. Na visão dele, a unidade da cidade havia sido rompida com a criação dos polos das zonas Norte e Sul. Já com a abertura de túneis, facilitando o acesso à Barra, essa unidade seria restaurada. “O que está em jogo é a estruturação urbana definitiva da Cidade-Estado”, escreveu o autor.
Lucio Costa acompanhava a aplicação de seu plano de perto. Ele trabalhava junto a uma equipe na Superintendência de Desenvolvimento da Barra da Tijuca (Sudebar), em um escritório na Avenida Ayrton Senna. O arquiteto e urbanista Hugo Hamann, que fez parte do time, conta que a principal briga que o grupo travava era contra as pressões da especulação imobiliária.
— O governo perdeu a oportunidade de desapropriar terrenos quando a região era desvalorizada, antes das intervenções estruturais. Depois de abrir túneis e levar saneamento para o local, os preços dos terrenos explodiram. Por isso, a área onde seria o Centro Metropolitano nunca foi desapropriada, apesar dos pedidos insistentes do professor Lucio Costa — conta Hamann.
Uma dessas disputas em torno da península da Barra foi acompanhada pelo noticiário. Originalmente, a área tinha sido autorizada a receber 14 prédios de oito andares e um shopping. Dono do terreno, o empreiteiro Carlos Carvalho chegou a criticar o projeto de Lucio Costa: “esse plano já nasceu velho”, disse ele.
— Em uma canetada, o gabarito passou de oito para 18 andares, e os prédios se multiplicaram. O professor escreveu uma carta à prefeitura em que definiu aquilo como “tramoia” e “ardilosa manipulação”. Ele não era dado a esses arroubos, mas, às vezes, ficava indignado — diz Hamann.
Mesmo tentando transformar seu plano em lei, Lucio Costa viu decretos desvirtuarem seu conceito original. A gota d’água se deu em 1981, quando o decreto 3.046, do prefeito Julio Coutinho, esvaziou politicamente a Sudebar, rebaixando-a a um órgão de assessoramento. Desanimado, Lucio Costa não renovou seu contrato com a prefeitura e se demitiu. “A Barra ficou à deriva, como um navio sem rumo”, afirmou, em entrevista ao GLOBO, em junho de 1990.
Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior