Milícia é o maior temor de 29% dos moradores de comunidade, aponta pesquisa

Em franca expansão no Grande Rio, as milícias já são vistas como a principal ameaça por 29% dos cariocas que vivem em comunidades. É o que revela uma pesquisa feita pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) em parceria com o Datafolha, obtida com exclusividade pelo GLOBO. O levantamento também mostra que os conflitos armados na cidade afetam direta ou indiretamente a grande maioria da população, que não se sente mais segura mesmo depois de 11 meses de intervenção federal na segurança pública do estado.

PESQUISA DA SEGURANÇA
Atualmente, de quem tem mais medo?
NÃO MORA EM
MORA EM
GRUPO
CARIOCA
COMUNIDADE
COMUNIDADE
27
29
26
Milícia
39
34
Tráfico
25
9
12
18
Polícia
De todos na
mesma proporção
23
22
21
5
4
7
Não sabe
Ouviu tiroteios próximos a você?
75%
Sim
25%
Não
Sim
Não
Se viu no meio do fogo cruzado nos últimos 12 meses?
30
70
29
71
De 20 a 23 de março de 2018
De 23 a 25 de janeiro de 2019
Tem medo de…
Tem medo
Muido medo
Pouco medo
Não tem medo
87
87
77
77
9
9
13
13
…morrer assassinado?
…de ter objetos pessoais de valor tomados a força por outras pessoas em um roubo ou assalto?
89
89
72
70
16
19
11
11
70
74
58
59
12
15
30
26
…ser vítima de violência por parte da PM?
61
66
48
49
13
16
34
39
…ser vítima de violência por parte da Polícia Civil?

A pesquisa perguntou aos entrevistados se eles tinham mais medo de milícias, do tráfico de drogas, da polícia ou de todos em igual medida. No caso dos moradores de comunidades, os milicianos já aparecem numericamente à frente dos traficantes, citados por 25% dos ouvidos. A diferença de quatro pontos percentuais está dentro da margem de erro do levantamento, que é de 3 pontos percentuais para mais ou para menos. Pagos para garantir a segurança da população, os policiais são as figuras mais temidas por 19% dos moradores de comunidades. Enquanto isso, 21% dos entrevistados dizem temer todos os citados igualmente.

O resultado contrasta com a percepção geral na cidade. O tráfico de drogas ainda é citado como maior temor de 34% dos cariocas, contra 27% que citam os grupos paramilitares. Enquanto isso, 22% dos cariocas diz temer igualmente os traficantes, os paramilitares e os policiais — que são a maior preocupação de 12% dos ouvidos. A pesquisa ouviu 843 pessoas entre 23 e 25 de janeiro.

Para Renato Sérgio de Lima, presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o crescente terror provocado pelos grupos paramilitares tem relação com as transformações sofridas por esse tipo de quadrilha nos últimos anos e com a expansão de seus territórios — cerca de 2 milhões de pessoas já vivem sob a influência de milícias no Grande Rio, segundo o G1. A troca de guarda nesses grupos, com maior influência de civis e até mesmo ex-traficantes em substituição aos agentes de segurança que as controlavam no passado, também afastou a narrativa de que os grupos paramilitares protegiam as comunidades que dominavam.

— As pessoas deixam de ver a milícia como protetora e passam a ver como ameaça. Havia essa coisa moralmente imbricada de forças do bem contra forças do mal. Quando as pessoas percebem que esses grupos se impõem através da força, isso muda — explica Lima.

O cientista político João Trajano Santo-Sé, pesquisador do Laboratório de Análises da Violência da Uerj, destaca também o projeto expansionistas das milícias, que tem levado a confrontos com traficantes e também com outros grupos paramilitares.

— Com a expansão e a diversificação do negócio (das milícias), eles começam a disputar entre si. Começa a haver vários grupos com disputas que geram confrontos e violência. É um processo que tem algum parentesco com a expansão do tráfico — lembra — Com essa expansão, necessariamente vem o recrudescimento do uso da violência.

A pesquisa também revela que os tiroteios fazem parte do cotidiano da maioria dos moradores do Rio. Três em cada quatro ouvidos relataram ter ouvido trocas de tiros nos últimos 12 meses, enquanto 29% dos entrevistados foi além e garantiu ter ficado no meio do fogo cruzado no mesmo período. Ao longo de 2018, se tornaram comuns as cenas das principais vias expressas da cidade – como a Avenida Brasil e as linhas Amarela e Vermelha – fechadas por conta de confrontos armados, com cidadãos apavorados buscando abrigo nas muretas que dividem as pistas.

— Esse número é gravíssimo e mostra que nós estamos errando feio na abordagem ao problema da violência, colocando em risco a população. Deveríamos investir em mecanismos de prevenção e investigação, não em confrontos — critica Renato Sérgio de Lima.

João Tancredo lembra que o número de tiroteios no Rio vem aumentando progressivamente desde a falência do projeto das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Segundo ele, a própria intervenção foi uma radicalização desse processo.

— A falência das UPPS que vem com a crise financeira do estado nos últimos anos trouxe com ele a retomada das estratégias antigas de segurança. A lógica da guerra contra o tráfico, o enfrentamento armado e o uso excessivo da força têm sua expressão mais acabada na intervenção. Foi a radicalização institucional dessa abordagem — completa

A pesquisa ainda perguntou aos entrevistados se sentiam medo de serem vítimas de 25 tipos de crimes e situação que envolvem sua segurança. Em apenas uma delas houve melhora além da margem de erro em relação com o levantamento anterior, feito no começo da intervenção, entre 20 e 23 de março do ano passado. Agora, 60% dos cariocas dizem ter medo de andar em sua vizinhança depois do anoitecer, contra 67% na pesquisa realizada no ano passado. Em relação à vitimização nos últimos 12 meses, nenhum dos fatores avaliados apresentou melhora significativa após a atuação das Forças Armadas no Rio.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior