UFRJ cria projeto para preservar trilhas de Niterói

Quem passeia pela trilha do Morro da Peça, em Itaipu, se depara, logo na entrada, com um extenso jardim de espada-de-são-jorge, que cerca os dois lados do caminho. A planta, muito usada para ornamentação e que tem fama de afastar mau-olhado, foi trazida por algum visitante, que, provavelmente, tinha o intuito de deixar o caminho mais bonito. É, entretanto, exótica e prejudica o crescimento de outras espécies. No Morro das Andorinhas, uma área cheia de biodiversidade ganhou mais um elemento: grama sintética. Nas trilhas do Córrego dos Colibris e do Bananal, intervenções semelhantes feitas a longo prazo podem erradicar espécies nativas. Com o objetivo de analisar as trilhas do Parque Estadual da Serra da Tiririca (Peset) e levar alunos dos ensinos médio e fundamental a entenderem a dinâmica de cada um desses quatro ecossistemas, quatro universitários do Instituto de Biologia da UFRJ, sob a coordenação da professora e doutora Cássia Sakuragui e em parceria com o Peset, passaram um ano coletando material botânico das trilhas. O relatório do projeto de extensão, que inclui informações e detalhes específicos sobre cada ambiente, foi enviado quinta-feira para a administração do Peset, que instalará placas informativas em janeiro e patrocinará a visita de estudantes.

Apesar de essencial, a troca de conhecimentos entre as universidades e os estudantes dos ensinos médio e fundamental ainda é incipiente, afirma Cássia. A proposta principal do projeto é, portanto, incentivar excursões escolares aos locais, já que todas as trilhas têm níveis de dificuldade fácil e moderado. O Peset fica encarregado de promover o passeio junto às escolas. Mas, com as placas instaladas, toda a cidade vai sair ganhando. O trabalho é uma forma lúdica de estimular a educação ambiental.

— Conversando com a equipe do Peset, fui informada de que a comunidade do entorno do parque tem dificuldade de entender a importância de manter e respeitar o ambiente natural. As pessoas não respeitam a mata, e muitas delas têm medo de répteis, por exemplo. Queremos trabalhar com escolas, levar os estudantes às trilhas, mas o material didático que estamos preparando vai servir para qualquer pessoa que possa visitar o parque — acrescenta Cássia.

A universitária Gabriela Gomes, encarregada de mapear o Morro da Peça, cujo caminho é percorrido em apenas dez minutos, conta que, além das espécies exóticas que chamam muita atenção dos especialistas, a vista do alto da trilha é uma ótima forma de estudar as interações entre os ecossistemas que compõem o parque. É possível ver mar, lagoa, laguna, manguezal, costão rochoso e duna. Com as placas informativas que reproduzem a paisagem, os visitantes conseguirão reconhecer cada um deles. Todas as trilhas terão suas observações específicas.

Participantes observam aves do entorno do mangue de Itaipu – Bárbara Lopes
— Recebemos o relatório sobre as quatro trilhas na quinta-feira, vamos trabalhar essas informações para as placas e, em janeiro, queremos instalá-las para iniciarmos o trabalho de educação ambiental em fevereiro, quando as aulas recomeçarem — garante o coordenador de pesquisa, monitoramento e manejo de ecossistemas do Peset, Felipe Queiroz.

MANEJO E REPLANTIO

Esses não serão os únicos pontos contemplados. Há uma semana os funcionários do Peset cadastraram cerca de 30 voluntários que ajudarão no manejo das trilhas, com delimitações e plantio de mudas. Esse trabalho começou na última quinta-feira, com a capacitação dos participantes, no Monte das Orações, em Várzea das Moças. Segundo o chefe do Peset, Alexandre Ignácio, a conclusão está prevista para o fim do ano.

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— Muita gente nos procura querendo ajudar. Depois do Monte das Orações, vamos fazer o manejo da subida do Costão. Tudo deve durar cerca de três meses — conta.

As ações comemoram ainda o aniversário do parque, que acaba de completar 24 anos. Há duas semanas, o Inea levou um grupo para observar aves da região pelo projeto Vem Passarinhar, realizado nos parques estaduais. Durante dois dias, os participantes e gestores catalogaram 115 espécies como o gavião-papa-gafanhoto e a colorida saracura-três-potes.

— Não tinha ideia da diversidade que há ali. Quando eu via um gavião, achava que era um tipo só, mas identificamos vários diferentes. Eu nunca tinha reparado no canto de algumas aves. Moro aqui perto e agora eu tenho uma outra percepção — conta Rita Gomes, uma das participantes.

Fonte: O Globo
Foto: Antônio Scorza / Agência O Globo
Postado por: Raul Motta Junior