Ar-condicionado bem gelado, espumante para as clientes, uma vasta linha de tratamentos estéticos e até bronzeamento artificial. O público que frequenta o Espaço Ibiza é mesmo bem exigente e gosta de mordomias. Por isso, a dona do local, a designer de moda Fabiane Leiroza, de 36 anos, também disponibiliza para venda roupas e bijuterias para as clientes da boutique localizada dentro da comunidade da Rocinha, na Zona Sul do Rio. O local é frequentado por personalidades da mídia como a escritora Bibi Perigosa e a funkeira Perlla.
Aberto há 4 meses, o espaço foi criado por Fabiane para oferecer tratamentos de beleza para as moradoras da comunidade. Mas quem tem mesmo usufruído dos serviços são as madames do asfalto.
— Hoje, cerca de 80 por cento do meu público vem de São Conrado, Barra da Tijuca e Recreio. Sou maquiadora profissional e conheço bem o mercado da beleza. Há um tempo, venho percebendo que as mulheres, principalmente da classe média, não querem mais gastar uma fortuna no salão. Isso é compreensível, estamos passando por uma crise. Mas ao mesmo tempo, todos querem estar bem. Sou do Méier e resolvi apostar aqui, já que muitos amigos comerciantes têm conseguindo um bom retorno aqui. Acho que consegui juntar o luxo dos salões da Zona Sul e o bom preço da comunidade — explica Fabiane, que tem um espaço com quatro ambientes na Estrada da Gávea, na altura do número 447.
Além das madames cariocas, o salão também é ponto fixo de celebridades da mídia como a funkeira Perlla, que costuma frequentar o espaço para fazer sessões de bronzeamento artificial:
— Outra que também está aqui quase toda semana é a escritora e cantora Fabiana Escobar, a famosa Bibi Perigosa. Ela vem tanto aqui que já está virando nossa garota propaganda.
Para construir o espaço de embelezamento, Fabiane conta que investiu cerca de R$ 90 mil e que tem gastos mensais na ordem de R$ 4 mil.
— A média de gastos aqui no salão é de R$ 200, por cliente. Mas é claro que tem algumas que aproveitam que vendemos roupas e fazem a festa.Têm meninas que chegam aqui e fazem o bronzeamento, banho de lua (dourar os pelos), cabelo, maquiagem, compram roupas e já saem montadas para alguns eventos.
Segundo Bibi Perigosa, o espaço agrega valor à comunidade. E mostra que a região tem vocação para bons negócios:
— Amo fazer as minhas marquinhas aqui. E acho legal pessoas que meninas que não sejam da Rocinha estarem vindo aqui. Temos muita coisa boa para oferecer.
AS MOÇAS DO ASFATO
Moradora de São Conrado, a estudante de moda Raffaela Vieira, de 30 anos, conta que estava em um salão de beleza na Zona Sul fazendo as unhas, quando uma manicure contou para ela sobre a novidade na Rocinha:
— No início, estranhei. Sei que tem muitos salões na Rocinha, mas são menores. Agora, um espaço de beleza com bronzeamento artificial era novidade pra mim. Visitei a primeira vez e nunca mais parei de voltar. O preço e o conforto me conquistaram.
Frequentadora assídua do espaço a influenciadora digital Cíntia Ferreira, de 29 anos. Reserva sempre um dia da semana e sai da Freguesia, na Zona Oeste, para se bronzear na Rocinha.
— Me sinto bem atendida, os preços são ótimos e a estrutura do salão é tão boa quanto as dos bacanas. Nunca tive preconceito por ser na Rocinha. Acho que as pessoas precisam entender que uma comunidade é feita de muita gente boa e talentosa. Infelizmente, existe o crime organizado, mas isso é um problema do estado — comenta Cíntia.
VOCAÇÃO PARA A BELEZA
O centro estético de Fabiane tem serviços específicos como o bronzeamento a jato, mas não está sozinho dentro da Rocinha. Segundo um levantamento feito pelo Rocinha Sem Fronteiras (movimento de moradores da comunidade), a região abriga uma média de 100 salões de beleza.
— Nós temos uma comunidade viva e cheia de talentos. Temos muitos salões de beleza para mulheres, mas também temos barbearias. A gente acha isso incrível, porque são atividades que ajudam a movimentar de maneira bacana a economia da Rocinha — comenta José Martins de Oliveira que é coordenador do Rocinha Sem fronteiras.
Ainda de acordo com Martins, mesmo com a violência que domina a região, é importante que espaços de beleza e outros comércios consigam atrair moradores de outras regiões para o interior da comunidade:
— Isso desmistifica a ideia de que só vivem bandidos nas comunidades. Pelo contrário. Esse é um ambiente muito produtivo, mas pouco valorizado por nossa classe política. Quando os governantes chegam aqui, eles só querem maquiar a Rocinha. E nós queremos é estrutura e invertimento no nosso povo.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior