Em meados de agosto, a prefeitura do Rio anunciou no Diário Oficial que taparia buracos de 200 ruas da cidade. A meta era ambiciosa: o município garantia que o “mutirão do asfalto”, como a operação que envolveria 200 operários foi batizada, daria fim, em apenas dois dias, a crateras que se espalham pelo Centro e pelas zonas Sul, Norte e Oeste. A previsão era que, no dia 18 de agosto, o esforço coletivo tivesse chegado ao fim. Mas, nesta quarta-feira, passado quase um mês da promessa, o trabalho não terminou. E as queixas sobre má conservação das vias não param de chegar à Central 1746. Somente este ano, de janeiro a agosto, o serviço recebeu 31.489 solicitações de reparo de buracos no Rio, 54,9% a mais do que no mesmo período do ano passado, quando foram feitos 20.325 pedidos.
Para evitar que pedestres tropecem em buracos e motoristas tenham os pneus de seus carros rasgados, ou a suspensão de veículos danificada, moradores têm improvisado soluções em diferentes áreas da cidade. Na Rua São Salvador, em Laranjeiras, onde duas crateras que a prefeitura assegurou que taparia durante o mutirão continuam abertas, porteiros colocam sacos com entulho em cima dos buracos para amenizar o problema.
Na Rua Santa Clara, em Copacabana, onde um buraco foi tapado durante a ação da prefeitura, mas outros dois seguem atrapalhando quem passa pelo local, houve uma “vaquinha” entre porteiros. Eles se cotizaram para comprar concreto e, por conta própria, asfaltar um trecho da via. Com boa vontade, mas pouca técnica, a iniciativa não deu certo: em pouco tempo, tudo cedeu.
— Um desses buracos tem cerca de quatro meses. Porteiros se uniram e passaram concreto em cima para tentar tapá-lo. A prefeitura veio aqui e consertou um mais à frente, mas não mexeu nesse. Agora, ele só aumenta – lamentou o guia turístico Antônio Carlos Ferreira, de 36 anos, morador da rua.
Na Rua Ceará, na Praça da Bandeira, a situação é ainda mais grave. Um dos buracos da via é tão extenso que comerciantes conseguiram “recheá-lo” com uma miscelânea de objetos. Coube desde galhos de árvore e telhas de amianto a um cone de trânsito, um caixote de madeira e um tapete de borracha.
— Isso é uma vergonha para todos nós. Já tem um mês que esse buracão surgiu — reclamou uma moradora.
O comerciante Antônio Manuel reclama que o “queijo suíço” em que a Rua Ceará se transformou é um péssimo “cartão de visitas” para seu negócio:
— É um absurdo. Já era para ter sido consertado. Isso atrapalha até o comércio. Não pode parar caminhão na rua, espanta a clientela.
ACIDENTES FREQUENTES
Um morador conta que acidente são frequentes.
— Um motociclista outro dia caiu e se machucou todo. Tem gente que tira até foto para processar a prefeitura depois de arrebentar o carro.
Na lista do mutirão da Secretaria de Conservação e Meio Ambiente (Seconserma), consta toda a extensão da Rua São Clemente, que ontem exibia um buracão na faixa seletiva, perto do Colégio Santo Inácio. Na Zona Norte, crateras que estavam na previsão da prefeitura, na Rua Leopoldo Bulhões, continuam abertas. Na Avenida Atlântica, no entanto, o serviço previsto foi feito, assim como na Rua Alice e na Rua das Laranjeiras.
Para o arquiteto e urbanista Manuel Fiaschi, professor da PUC-Rio, a importância de manter em dia o asfalto da cidade vai muito além de simplesmente evitar quedas e desastres. O cuidado é capaz de melhorar a a autoestima da população:
— Se uma cidade está bem cuidada, você cuida também. Não vai jogar lixo, vai ajudar a conservar e isso é muito importante. O inverso disso é muito ruim. Buracos e sujeira acabam incitando um círculo vicioso em vez de um círculo virtuoso.
A Seconserma informou ontem que, em agosto, foram tapados 2.452 buracos nas zonas Norte e Sul, em 351 ruas. Na Zona Oeste, onde no início do mês a pasta anunciou que taparia 30 mil buracos, num prazo de 30 dias, já foram consertadas, de acordo com o órgão, 4.114 buracos em Bangu, bairro escolhido para o início da intensificação dos serviços na região.
A Seconserma afirmou, inicialmente, na terça-feira, que o mau tempo prejudicou o cronograma do “mutirão de asfalto”. Ontem, a pasta disse, no entanto, que “atuou no Mutirão do Asfalto dos dias 16 a 17 de agosto em todas as ruas citadas pela reportagem, com exceção da Rua Ceará, que não estava na listagem programada pela secretaria”. O órgão afirmou ainda que “alguns buracos surgiram depois do mutirão de agosto. Outros, que tinham sido tapados, reabriram, devido às chuvas, que fizeram o asfalto perder aderência. Esses imprevistos podem fazer com que eventualmente o serviço precise ser refeito. É por isso que a manutenção das vias da cidade é constante”.
Fonte: O Globo
postado por: Raul Motta Junior
Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo