Moradores de São Cristóvão e arredores acham objetos do Museu Nacional

“Parecia um vulcão explodindo”, afirmou João Lucas Souza Araújo, de 11 anos, ao ver o incêndio do Museu Nacional na noite de domingo. No dia seguinte, perto de sua casa, ele e outras crianças viram parte do que restava da instituição bicentenária no chão da rua: eram cinzas, fragmentos de livros e até pequenas amostras de insetos. João Lucas reuniu três fragmentos que conseguiu obter, os protegeu em um envelope plástico e na manhã desta terça-feira foi com o pai, Joabs Souza, até a Quinta da Boa Vista devolver para o museu um pouco de sua história. Segundo o pai, ele insistiu para entregar pessoalmente o material. Outros moradores de São Cristóvão e bairros próximos também encontraram objetos chamauscados pelas chamas e levados pelo vento. Na maior parte, eram fragmentos de documentos. Na Tijuca, uma placa com mais de uma dezena de besouros foi parar na varanda da cobertura de uma moradora

— Eu estou fazendo parte da reconstrução da história do museu, e eu sempre gostei muito daqui, apesar de não ter vindo muitas vezes. Mas meu pai passou a infância aqui, cresceu aqui. Meus colegas também acharam vários papéis — conta João Lucas — O que encontrei parece ser uma coleção de besouros. Me disseram que é uma coleção de besouros da princesa Leopoldina, que ela trouxe para a antiga residência dela.

João Lucas encontrou também outros dois documentos, fragmentos de páginas. O primeiro fala sobre o Museu de História Natural da Guatemala; o segundo tem trechos que tratam sobre a reforma trabalhista, não se sabe de quê ano. João Lucas entregou o material no Horto Botânico do Museu Nacional, um prédio separado do incediado e que não foi afetado pelas chamas. A administração do órgão pede que papéis encontrados por moradores do entorno sejam levados diretamente para lá.

A criança foi recebida no Horto por uma funcionária, que, vestida com um jaleco, luvas plásticas e máscara de cirurgia, agradeceu a contribuição do jovem. Ali, João Lucas encontrou uma colega de escola, que ontem também reunião material do museu perto de sua casa. De acordo com seguranças do Horto, estas foram as duas únicas entregas de material até o início da tarde desta terça-feira.

Quando acordou na manhã de segunda-feira, dia seguinte ao incêndio que destruiu o museu e transformou em pó boa parte do que estava exposto nele, uma cena chamou a atenção da relações públicas Rita Lamosa, de 55 anos: em sua varanda na cobertura de um prédio de cinco andares na Tijuca, perto da Praça Saens Peña, foi encontrara em meio a fuligem oriunda das chamas, uma pequena placa onde estavam dispostos mais de dez besouros, que segundo a professora e pesquisadora da UFRJ Marcela Monné, realmente são do acervo da instituição.

— Ontem (segunda-feira) de manhã, quando nós acordamos, o meu marido viu na varanda esta plaquinha. Nós tiramos logo do local, porque temos cachorro, para ele não destruir. E eu acondicionei num plástico e numa latinha para proteger, porque é muito sensível — contou a moradora que reside a cerca de dois quilômetros do museu e não esperava que uma peça do acervo da instituição fosse parar tão distante.

Marcela Monné, que é também curadora da coleção de besouros do Museu Nacional, disse que só depois de ver os insetos, que estariam carbonizados, poderá avaliar o estado deles. Mas, com base nas fotos publicadas na internet e divulgadas na imprensa, confirmou que pertencem de fato ao acervo da instituição. Os insetos encontrados pela moradora foram guardados por ela num saco plástico e colocados dentro de uma latinha para protegê-los e será devolvido nesta quarta-feira à pesquisadora, que já fez contato com ela.

— São peças do museu sim. Faziam parte do acervo científico. Era material que não estava montado. Estava guardado nas gavetas em mantas, que são retângulos que têm como base algodão. Era material que ainda seria montado em alfinetes. É do grupo que eu trabalho. São besouros, são cerambicídios da família Cerambycidae — confirmou a pesquisadora.

O turismólogo Felipe Oliveira, de 24 anos, encontrou no terraço da casa onde mora na Rua Folic, perto do Campo de São Cristóvão, alguns fragmentos que supostamente seriam de documentos do museu, levados pelo vento junto com as fuligens. Após guardar num pequeno pote de acrílico o material praticamente em cinzas, o rapaz pensa devolvê-lo para a instituição.

— Pode ser que seja útil para alguma coisa. Enquanto andava pelo quintal recolhendo essas coisas vinha à minha memória o museu e o quanto ele foi importante para mim. Foi triste (encontrar os fragmentos), mas ao mesmo tempo me alegrei por saber que é um pedaço da história que pode ser resturado. E eu estarei contribuindo para isso — disse o rapaz.

O auxiliar de serviços gerais, Douglas Alvarenga Vieira, de 20 anos, morador no Morro da Mangueira, encontrou numa rua perto de sua casa os fragmentos da página chamuscada de um livro escrito em inglês e com imagens de invertebrados, que ele acredita pertencer ao museu. Sua mãe, Scheila Alvarenga, de 50 anos, moradora numa vila na Rua Visconde de Niterói, encontrou perto de casa, junto com a fuligem uma página de uma lista de presença de uma prova do curso de Teoria Antropológica, aplicada em 2009 aos alunos de Mestrado em Arqueologia. O jovem disse que fez contato com a instituição, através de um e-mail, pelo qual enviou também fotos, mas ainda não obteve resposta.

— Queria devolver. Para mim não tem nenhum valor, mas pode ser importante para eles, de alguma forma. Sou criado na Mangueira e passei minha infância na Quinta da Boa Vista visitando aquele museu. Fiquei muito triste com o que aconteceu.

Scheila contou que encontrou a lista de presença no começo da tarde de segunda-feira, quando varria a fuligem que tomou conta da frente de sua casa. Ela conta que ficou surpresa em encontrar a folha praticamente intacta, em cujo cabeçalho vinha o nome do Museu Nacional. A dona de casa acredita que o papel tenha sido levado pelo vento.

— A gente não saber o valor que isso tem , mas faz parte de lá, do museu. A gente não tem a noção exata da importância. Mas, de qualquer forma, pode ser útil para os alunos. Só que não sei quem procurar para devolver — lamentou a dona de casa.

A estudante Mariah Freitas de Oliveira Rodrigues, de 21 anos, moradora em Vila Isabel, também recolheu fragmentos que ela acredita ser de documentos do museu, porque foram levados junto com a fuligem. Parte do material é praticamente cinza, mas é possível ler algo escrito neles. Há ainda pequenos pedaços de papel que se salvaram do fogo, com uma numeração seguida de palavras em latim, dando a entender que seriam nomes científicos de alguma espécie vegetal ou animal. Ela também pensa devolver.

— É o mínimo que a gente pode fazer. É uma situação extremamente triste e chocante (o incêndio do museu). Acho que o máximo que a gente conseguir devolver ajuda a resgatar um pouco da história perdida pelo fogo — acredita a jovem.

Mais cedo, o vigia Felipe Silva, de 29 anos, entregou diretamente no Museu Nacional um folha de um livro do acervo da instituição, possivelmente da área de paleontologia. Ele encontrou o material na manhã de segunda-feira, quando realizava seu trabalho de ronda.

— Estava andando quando vi o papel no chão, no asfalto. Imaginei que era algo importante, para preservar. É um pequeno pedaço do nosso museu que deu para resgatar.

Silva contou com a ajuda do cientista social Felipe Souza, 32 anos. Os dois juntos conseguiram averiguar que se tratava de algo do museu e armazenaram o material em um saco plástico e um contêiner para preservá-lo. Morador de São Cristóvão, Souza costumava frequentar assiduamente a instituição e passou a ser amigo do vigilante de 29 anos.

— Quando tocamos nas folha, percebemos ela se fragmentava. Estava muito perigoso segurá-la. Então busquei um envelope para guardar o material que, mesmo pequeno, pode ser de grande ajuda para a restauração do acervo do Museu Nacional. Orientei-o a procurar pesquisadores e entregar as folhas. Mas como ontem havia um grande reboliço aqui, achamos melhor aguardar hoje para fazer a entrega do material. Moradores de São Cristóvão são os verdadeiros guardiões do Museu Nacional. Ele é um símbolo, infelizmente, foi destruído — relatou Felipe Souza.

A assessoria de imprensa do museu divulgou imagem de um cartaz no qual pede às pessoas que tenham encontrado objetos com características históricas, que possam ser do acervo, para levá-los à biblioteca central, localizada no horto botânico da Quinta da Boa Vista. O diretor da instituição Alex Kellner disse que objetos como os insetos encontrados pela moradora da Tijuca são de extrema importância e devem ser devolvidos imediatamente.

Já com relação aos fragmentos de documentos, ele pede que as pessoas os guardem em casa, por enquanto, e aguardem uma orientação do museu que ainda está se organizando para avaliar a importância desse material e a melhor maneira de recolhê-lo.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior