Livro celebra a história e os anos de resistência do Teatro Rival

As mulheres que iam assistir à peça “Amor”, no Teatro Rival, inaugurando a casa de espetáculos, voltavam ao local com suas costureiras para copiar os modelos que a atriz Dulcina de Moraes usava. Algo pioneiro no ano de 1934. Esta e outras saborosas histórias estão reunidas no livro “Teatro Rival – Resistência e sensibilidade”, que o ensaísta, compositor e professor Fred Góes acaba de lançar.

— É curioso, pois “Amor” era classificada pela crítica como comédia/filme, uma classificação inovadora, que nunca tinha visto, pois mesclava em sua montagem e estrutura um aspecto cinematográfico. A história de uma mulher que tinha um ciúme doentio do marido colocava o divórcio em discussão já naquela época — comenta Góes.

O livro conta a história do Rival, inaugurado em 1934 pelas mãos do dramaturgo Oduvaldo Viana, e cujo nome remete ao latim — rivalis significa relativo a rio ou aqueles que compartilham as águas de um mesmo rio. Para escrevê-lo, Góes usou como base para a pesquisa a tese da filha, a atriz e apresentadora Micaela Góes na conclusão do curso de artes cênicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFERJ). A pesquisa foi ampliada por meio de consulta a diversos arquivos, incluindo o acervo do teatro e os depoimentos da atriz Ângela Leal, atual responsável pelo espaço junto com a filha, a atriz Leandra Leal. A obra levou cinco anos para ser concluída.

— Acho que um teatro carioca, que guarda essa marca do Rio de Janeiro até no nome, merece ser homenageado. Está vivo há 84 anos, vivendo de dinheiro privado e sendo sempre popular. E tem ainda a Ângela Leal e sua consciência de que o Rival não era um mero negócio. Tinha amplitude cultural — diz Góes.

A escolha das ilustrações ficou sob a responsabilidade da artista plástica e pesquisadora literária Graça Coutinho, mulher de Fred Góes. Alguém que, conforme descreveu o marido na introdução do livro, “como uma montadora cinematográfica, criou um roteiro de imagens tão eloquente desta história que acabou por dar ao livro uma feição de fotobiografia, como se pelas imagens, o Rival contasse sua história”.

Fred foi por seis edições, presidente do júri do Prêmio Rival de Música, que contemplava a música independente, dando espaço ao cenário paralelo à produção da indústria fonográfica, e por isso inclui sua família no contexto da família Rival. O livro ressalta ainda importância do sentimento familiar, reforçado entre Américo Leal, a filha Ângela Leal e a neta, a também atriz Leandra Leal. Esta, por sinal, é reponsável, junto com o marido Alê Youssef, pelo Rivalzinho, que, em abril, voltou a promover festas e a ocupar a rua.

— Podemos dizer que esse trabalho é fruto de toda Família Rival, pois só em função de Ângela ter construído um acervo de memórias, foi possível concluir este livro. E, desde a monografia de minha filha Micaela, contando com a imersão de minha esposa Graça na montagem da fotobiografia e meu afinco em produzir nos sentimos parte da história desse lugar, contou o pesquisador.

Segundo Góes, a principal mensagem transmitida no livro é a de resistência, pois em meio às inúmeras casas de espetáculos que vem fechando no Rio, o Rival permaneceu como um dos únicos estabelecimentos privados, na promoção de atividades culturais populares.

— Num Brasil sem muita memória, ter um livro com esse rico material sobre uma casa de espetáculos populares, contendo os programas da época e a fotografia de cena, é uma coisa muito rara — acredita.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior