Musical ‘Nara — A menina disse coisas’ estreia no Teatro UFF

Dona de uma voz suave, Nara Leão ficou conhecida como a musa da bossa nova. No entanto, a cantora, contemporânea de artistas como Maria Bethânia, foi muito além desse rótulo. De opinião forte e corajosa, Nara marcou a história da MPB, e toda sua pluralidade artística será contada e cantada no musical “Nara — A menina disse coisas”, hoje e amanhã, no Teatro da UFF.

Nara, que morreu em 1989 após lutar durante anos contra um aneurisma, será vivida por Aline Carrocino, também produtora da montagem, idealizada pelo jornalista Christovam de Chevalier e escrita pelo jornalista Hugo Sukman, em parceria com o ator Marcos França, dupla do elogiado “Deixa a dor por minha conta”, sobre Sidney Miller.

Tirado de um poema escrito por Carlos Drummond de Andrade para a cantora, o título dá o tom do espetáculo, que mostra falas da artista. Drummond é um dos muitos personagens interpretados por Marcos França, que dá voz também ao pai de Nara e a nomes como Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli, entre outros tantos.

— Pesquisamos tudo o que Nara disse em entrevistas, depoimentos e o que escreveu em artigos. Todas as músicas foram gravadas por ela e têm função dramática, com elementos autobiográficos, e nós as usamos justamente para conduzir a narrativa. Por exemplo, “Lindoneia”, que ela encomendou a Gil e a Caetano, é sobre uma moça suburbana, pobre que se olha no espelho. Usamos essa canção para mostrar como a adolescente Nara era insegura em relação à própria imagem. Ela se achava muito feia — explica Sukman.

A peça parte de um show de Carlos Lyra, em 1984, quando o cantor é surpreendido pela presença de Nara na plateia; Sukman também estava lá. Ela sobe ao palco para cantar “Primavera”, de “Pobre menina rica” — peça de Vinicius de Moraes e Carlos Lyra —, que Nara estreou em formato de show em 1963 e em cuja apresentação teve um lapso de memória.

Em outro show, dessa vez com Roberto Menescal, Nara esqueceu completamente as letras e descobriu que estava doente; posteriormente seria diagnosticado o tumor no cérebro. Os dois fatos são misturados, e a peça começa como se estivesse dentro da cabeça de Nara, com ela em busca de sua própria memória. A partir disso, sua vida é esmiuçada, sem, contudo, seguir uma ordem cronológica.

Entre as passagens está a sua emancipação aos 16 anos; seu encontro com Ronaldo Bôscoli, com quem romperia relações em seguida (e consequentemente com a bossa nova); a descoberta do aneurisma; sua adesão ao samba de morro e às canções de protesto, da Tropicália; e o exílio na França, de onde voltou apaziguada com a bossa nova e com outros clássicos brasileiros.

O roteiro de canções que contam todas essas histórias inclui temas como “Primavera” (Lyra e Vinicius), “Carcará” (João do Vale, do emblemático show “Opinião”), “Se é tarde me perdoa” (Lyra e Bôscoli) e canções daquele que foi o compositor mais presente no repertório da intérprete: Chico Buarque. São músicas como “João e Maria”, “Soneto”, “História de uma gata” (do musical “Os saltimbancos”, apresentado no extinto Canecão) e, claro, “A banda”, a primeira das muitas canções que gravaria do autor.

— Quem viveu à época vai reconhecer no palco a sua história. Nara viveu intensamente sua época. Quem não viveu vai descobrir esse Brasil fascinante e assustador dos anos 1960 e 70, estranhamente parecidos com o momento atual de tanta agitação política — conclui Sukman.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior