Aos 71 anos, Maria Pureza sofre de descalcificação óssea e, por recomendação médica, faz exercícios na Academia da Terceira Idade (ATI) da Praça da Cruz Vermelha, no Centro do Rio, três vezes por semana. Os aparelhos, porém, têm problemas de manutenção e não há mais professores de educação física e técnicos de enfermagem, que auxiliavam medindo a pressão e fornecendo orientações para os frequentadores. A Secretaria municipal de Assistência Social e Direitos Humanos garante que o projeto não acabou, mas diz que o contrato para o funcionamento dos núcleos está em “fase de renovação”, sem dar previsão para a retomada plena. Enquanto isso, os cerca de 10 mil frequentadores seguem sem a correta orientação profissional.
O programa, que chegou a contar com 307 unidades, ficou inativo entre 29 de maio e 19 de junho deste ano após o término do contrato. Informações do Tribunal de Contas do Município, órgão responsável por fiscalizar as contas do Poder Executivo, indicam que a prefeitura fez um novo contrato, com dispensa de licitação, para a retomada do projeto. Pelo termo, por R$ 5,24 milhões, uma instituição foi contratada para gerenciar 135 núcleos, o equivalente a 44% do total de unidades que já existiram. Em nota, a Secretaria afirmou que “por decisão de gestão, visto restrições orçamentárias, foi reduzido o número de núcleos do Projeto Rio Ar Livre – RAL”.
Ainda segundo o TCM, o contrato começou a valer no último dia 19 de junho, com término previsto para 16 de dezembro. “Segundo informações da SMASDH, o termo atual teve sua execução postergada e os núcleos estão sendo retomados paulatinamente”, explica o Tribunal de Contas do Município. Questionada, novamente, a Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos, justificou a dispensa de licitação alegando que “não havia tempo hábil para um chamamento público”.
A síria Badiha Mohammad, de 81 anos: carteirinha do antigo programa – Brenno Carvalho / Agência O Globo
A pasta afirmou que 135 núcleos já foram retomados, mas não forneceu a lista de endereços de locais onde o projeto voltou a funcionar. A pasta se limitou a dizer que a listagem com os respectivos endereços “estará disponível na página institucional da prefeitura nos próximos dias”.
Enquanto isso, frequentadores lamentam a falta de orientação. A síria Badiha Mohammad, de 81 anos, mostra a carteirinha de identificação dos alunos cadastrados no projeto Rio ao Ar Livre, nome atual das Academias da Terceira Idade. Com direito à foto 3×4, o papel, hoje, é uma mera recordação da organização que marcou o projeto.
— Agora não tem mais equipe. Tinha professor, uma pessoa que tirava a nossa pressão e também uma outra que funcionava como a parte administrativa. Tinha carteirinha, tínhamos blusa do programa. Agora não tem mais nada. Dizem que é falta de dinheiro — lamenta a moradora de Copacabana, enquanto se exercitava nos aparelhos já enferrujados da Praça do Lido, em Copacabana.
Em outro ponto da Zona Sul, no Leme, Floriano Marcolino, de 78 anos, só não vai à academia em dias de chuva. Segundo ele, não há mais profissionais há quase dois anos:
— Eu já aprendi, então todo dia faço uma hora. Só não venho quando está chovendo. Mas tinha gente pra cuidar da saúde, medindo pressão. Há quase dois anos não tem mais professor aqui, ainda era o antigo prefeito.
Diabético e hipertenso, Vicente Cardoso da Silva frequenta hoje o núcleo da Praça da Cruz Vermelha – Antonio Scorza / Agência O Globo
Diabético e hipertenso, Vicente Cardoso da Silva, de 59 anos, frequenta hoje o núcleo da Praça da Cruz Vermelha, o terceiro na peregrinação em busca de equipamentos em bom estado de conservação:
— A gente se sentia bem cuidado. Eu senti mudança no corpo porque tinha orientação profissional. A gente continua fazendo exercícios porque aprendemos alguma coisa. Venho duas vezes na semana. A gente se sentia muito bem. Eu saía daqui e chegava em casa com disposição. Mas os equipamentos já estão quebrados aqui também e não tem mais para onde ir — lamenta o morador da Rua do Rezende, que há sete anos frequenta o projeto.
EX-SECRETÁRIA CRITICA VALOR DE CONTRATO
O contrato atual, assinado com dispensa de licitação, ainda não deu entrada no Tribunal de Contas do Município. Em resposta, a Secretaria afirmou que tem 10 dias após a publicação no Diário Oficial do município para enviar ao Tribunal de Contas do Município cópia do termo de colaboração. A publicação foi feita no último dia 4.
Já sobre o estado de conservação dos equipamentos, a Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos disse que encontra-se em trâmite administrativo procedimento para contratação de empresa especializada para realizar a manutenção.
A vereadora Teresa Bergher (PSDB), ex-secretária municipal de Assistência Social e Direitos Humanos, diz que todas as academias funcionavam com três profissionais: um professor de Educação Física, um técnico de enfermagem e um funcionário administrativo. A carga horária era de 3 horas por dia, com três turmas (7h, 8h e 9h) em todas as unidades. A parlamentar, que critica a paralisação das academias, questiona também o valor do contrato:
— Eu particularmente entendo que as academias são extremamente importantes. Elas, na verdade, promovem a prevenção à doenças físicas e psíquicas. O convívio é também um momento de interação social. Somada a isso, vem a atividade física que é fundamental. Eu, por exemplo, faço pilates três vezes na semana. Atividade física está mais do que comprovada que é bom. Eu estranhei o contrato porque é de seis meses. Sai por cerca de R$ 860 mil por mês. Na nossa gestão, contrato com 307 núcleos, era de R$ 700 mil por mês.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior