Não se iluda com os contornos generosos das belas curvas nem com a natureza exuberante que abraça o trecho da BR-040 (Rio-Juiz de Fora) de subida da Serra de Petrópolis. A rodovia, que vai completar 90 anos no próximo mês, tem corpinho de 190. Inaugurada pelo presidente Washington Luís em agosto de 1928, a estrada parece ter voltado aos tempos do imperador Dom Pedro I, que se encantou com o clima da região ao passar por ali a caminho de Minas Gerais, em 1822. Naquela época, as viagens de carruagem levavam dias e eram fatigantes. Uma aventura que parece não ser muito diferente nos tempos atuais. Para os usuários, a estrada está esburacada, malconservada, com sinalização precária e pedágio caro. Não há sequer acostamento. A viagem pode durar horas se o motorista topar com acidentes. E eles são diários.
— É vergonhoso. Há muito tempo estamos percebendo que as condições da estrada de subida da serra só pioram. Venho uma vez por mês, mas fico imaginando quem tem que passar por ela todo dia. O pedágio é caríssimo e a estrada, péssima. É muito indigno. Isso não é respeitoso — afirmou a terapeuta Maria Klamas.
Os acidentes na Rio/Petrópolis
Carmo
Sapucaia
Duas Barras
KM 0
Levy Gasparian
Sumidouro
Três Rios
São José do Vale do Rio Preto
N
Paraíba do Sul
Areal
Valença
Friburgo
Teresópolis
Vassouras
Paty do
Alferes
Cachoeiras de Macacu
Barra do Piraí
Miguel Pereira
Mendes
Guapimirim
Petrópolis
Paulo de
Frontin
Serra de Petrópolis
(km 83 ao 102)
Piraí
Paracambi
Japeri
Magé
Queimados
Belford roxo
Itaboraí
Tanguá
Rio Bonito
Duque
de Caxias
Nova Iguaçu
Seropédica
Mesquita
KM 125
São joão
de Meriti
Nilópolis
Itaguaí
São Gonçalo
Niterói
RIO DE JANEIRO
Maricá
Saquarema
EVOLUÇÃO DOS ACIDENTES
Acidentes totais (km 0 ao 125)
Acidentes na serra (km 83 ao 102)
Mortos totais
104
100
91
89
84
84
84
82
79
79
76
76
71
71
61
59
60
49
22
22
21
20
20
18
17
17
17
15
15
14
13
13
11
12
8
5
5
5
4
5
3
3
3
8
2
2
2
2
1
1
1
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6
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GRANDES PREJUÍZOS
No ano passado, um relatório anual da Confederação Nacional do Transporte (CNT) sobre as condições das estradas federais descreveu como ruim ou regular o trecho de 19 quilômetros da Serra de Petrópolis. Em 2016, a Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan) apresentou um estudo detalhado sobre o trecho Rio-Juiz de Fora. O trabalhou estimou que, até 2031, haverá perda de R$ 531 milhões por ano com engarrafamentos, veículos quebrados, interrupções de tráfego, mortes e ferimentos. A projeção é de que até 3.500 acidentes sejam registrados no período.
Um balanço da Polícia Rodoviária Federal mostra que, dos 129 mortos em acidentes nas rodovias federais do Estado do Rio entre janeiro e julho deste ano, 16 ocorreram na BR-040.
A FALTA DE CONSERVAÇÃO NA BR-040
A Rodovia BR-040, que vai completar 90 anos no próximo mês, parece ter voltado ao tempo do imperador Dom Pedro IFoto: Marcio Alves / Agência O Globo
Naquele tempo, as viagens de carruagens duravam horas, eram cansativas e fatigantes. Uma aventura que parece não está muito distante de agoraFoto: Marcio Alves / Agência O Globo
Segundo os usuários, a estrada está esburacada, malconservada, com sinalização precária, tem pedágio caro, não tem segurança e a viagem pode durar horas se o motorista topar com um acidente. E eles são diáriosFoto: Marcio Alves / Agência O Globo
Tantos problemas que fizeram os moradores de Petrópolis esquecerem o título de “orgulho dos brasileiros” do tempo em que a estrada tinha o apelido de “Passo do Simplon do Brasil”, em referência à bela rodovia que corta os Alpes SuíçosFoto: Marcio Alves / Agência O Globo
O prefeito de Petrópolis, Bernardo Rossi (PMDB), afirmou que a cidade é a principal afetada. Segundo ele, o turismo, a indústria, o comércio e prestadores de serviço dependem diretamente da estradaFoto: Marcio Alves / Agência O Globo
No ano passado, no relatório anual das condições das estradas brasileiras, a Confederação Nacional do Transporte (CNT) descreveu como regular e ruim o trecho de 19 quilômetros da Serra de Petrópolis Foto: Marcio Alves / Agência O Globo
Já a Federação da Industria do Rio de Janeiro (Firjan) apresentou em 2016 um estudo detalhado da BR-040, no trecho entre o Rio e Juiz de Fora. O trabalhou projetou em R$ 1,5 bilhão os prejuízos em acidentes na rodovia apenas no trecho da SerraFoto: Marcio Alves / Agência O Globo
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Para tentar resolver o problema, em 2013, teve início a construção da Nova Subida da Serra (NSS), sob responsabilidade da Companhia de Concessão Rodoviária Juiz de Fora-Rio (Concer), que administra a estrada há 22 anos. Em 2016, o Tribunal de Contas da União (TCU) identificou irregularidades na execução do contrato e determinou a paralisação das obras. Semana passada, a situação se agravou: o TCU manteve a recomendação de paralisação, depois de constatar que permanecem irregularidades graves identificadas há dois anos.
No novo relatório, os ministros do TCU apontaram indícios de sobrepreço e superfaturamento de cerca de R$ 277 milhões e exigiram a apresentação de um novo projeto, com as correções necessárias. Ou seja, a obra dificilmente será retomada em breve.
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PROBLEMAS NA CONCESSÃO
Para o prefeito de Petrópolis, Bernardo Rossi (PMDB), a cidade é a principal afetada, pois turismo, indústria e comércio dependem diretamente da estrada.
— O petropolitano é penalizado desde 1998 com o início da concessão e a falta dos serviços previstos em contrato. Hoje, temos 1,5 milhão de turistas chegando à cidade anualmente, pela BR-040. Temos 277 indústrias que dependem de matérias-primas e escoamento de produtos; 800 produtores rurais que dependem de escoamento; e mais de dez mil moradores que se deslocam para estudo ou trabalho todos os dias no Rio e na Região Metropolitana — disse Rossi.
A comerciante Cláudia Pires, presidente da Associação da Rua Teresa, o maior polo a céu aberto de roupas da América Latina, conta que é impossível determinar quanto tempo um motorista gastará subindo ou descendo a Serra de Petrópolis. A viagem poderá ser interrompida se uma carreta virar e fechar as pistas.
— A estrada tem todos os problemas possíveis. Além dos buracos, não existe acostamento, e o trânsito é pesado a qualquer hora do dia. Se você pegar uma carreta na sua frente na subida, vai ser difícil ultrapassar — disse Cláudia.
Esta semana, O GLOBO percorreu a estrada para ver os problemas de perto. Eles, de fato, são muitos. Há buracos em vários trechos, principalmente nas curvas. Em alguns pontos, o concreto está rachando, abrindo fendas de até 30 centímetros próximo ao acostamento, tanto na pista de subida como na de descida. A equipe flagrou até um acidente: um carro derrapou numa curva, bateu num buraco próximo ao acostamento e tombou. O motorista, morador de Petrópolis, nada sofreu.
Uma grande quantidade de animais silvestres morre diariamente tentando atravessar a rodovia. A estrada fica na Serra da Estrela, uma pequena unidade de conservação que serve de ligação entre a Reserva Biológica do Tinguá e o Parque Nacional da Serra dos Órgãos. Na quarta-feira, O GLOBO flagrou uma preguiça tentando atravessar pista de descida, na altura do Km 93, pouco depois do Belvedere. Por sorte, o animal desistiu e tomou outro caminho. A Concer diz que, só este ano, já resgatou 330 animais silvestres.
SOBREPREÇO E SUPERFATURAMENTO
Quando foi projetada, em 1995, a NSS sairia por R$ 80 milhões, pagos exclusivamente pela concessionária, que hoje cobra pedágio entre R$ 12,40 (carros) e R$ 74,40 (longos caminhões com reboque), em cada uma das três praças do Rio a Juiz de Fora. Um termo aditivo firmado pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), em março 2012 — sob o argumento de garantir o equilíbrio econômico-financeiro do contrato de concessão — determinou três aportes financeiros da União, que somavam à época R$ 989,8 milhões e poderiam ser substituídos por ampliação do prazo de concessão.
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Também em valores de 2012, uma auditoria do TCU constatou sobrepreço de R$ 300,9 milhões, sendo R$ 203,8 milhões correspondentes a impostos superiores aos devidos e R$ 97,1 milhões a superfaturamento do orçamento do projeto. Segundo o tribunal, atualizado, o sobrepreço é de R$ 425 milhões, e o preço total subiu para R$ 1,42 bilhão.
A concessionária, por sua vez, diz que está tendo problemas para manter os investimentos em dia. Afirma que, desde dezembro de 2014, “tem enfrentado grave desequilíbrio do contrato de concessão por força da inadimplência da União em relação ao custeio das obras da Nova Subida da Serra”. Segundo a Concer, “tal fato impõe à empresa sérias dificuldades financeiras”, mas manutenção e conservação estão sendo mantidas.
O pedágio seria reajustado no fim de agosto, mas foi suspenso em decorrência de uma ação civil pública movida pelo Ministério Público Federal.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior